Amazônia: do apogeu dos “Rios Voadores” ao “Abismo do Deserto 

Coluna Soul do Norte, por Tatiana Sobreira. A Amazônia que ninguém vê, ou se vê, ainda assim se fazem de cegos!

Em um dos meus primeiros artigos, aqui na Jovem Pan News Manaus, comentei sobre o investimento pesado da indústria chinesa na produção de tambaqui em larga escala. É um movimento gigante da indústria alimentícia, mas que traz um alerta necessário para a gente colocar os “pingos nos is”.

Para quem nunca pisou em solo amazônico, é preciso entender o que é realidade e o que é sobrevivência por aqui. Quem vê de fora, geralmente só enxerga a exuberante e imponente Amazônia e aquelas imagens de cinema ou documentários:  a abundante Amazônia farta e infinita. Todas elas coexistem, mas a verdade que ”dói no bolso” e no prato do amazonense é o oposto disso.

O impacto que a gente sente na pele é avassalador.

Quando a seca chega (e está chegando cada vez mais de forma continua e alarmante), com esse desequilíbrio ambiental todo, o que sobra é terra seca e mortandade. O rio se perde na curva, superaquece e morre o peixe (nossa ictiofauna), sofre a fauna aquática e seca a flora, tomba a mais resistente das árvores, e até os famosos “rios voadores” que levam chuva para o resto do país não conseguem resistir a tanto descaso.

A conta não fecha: enquanto o mundo olha para o nosso potencial comercial, a gente luta para que o bioma não vire um deserto e para que o ribeirinho ainda tenha o que pescar amanhã.

A Amazônia não é apenas uma floresta; é o coração pulsante de um sistema hidrológico local.

Na década de 1980, o climatologista Eneas Salati revelou ao mundo a teoria dos “Rios Voadores”: imensos volumes de vapor d’água que, através da evapotranspiração das árvores, são lançados na atmosfera e transportados por correntes de ar para o Sul e Sudeste do Brasil. Esse fenômeno é o que garante a chuva para a agricultura paulista e o abastecimento de água nas metrópoles brasileiras.

No entanto, esse ciclo vital está sob ataque direto. A destruição em larga escala do “ser amazonida”, o modo de vida em harmonia com a floresta,  é orquestrada pela ganância do ouro, pela pecuária predatória e por uma “pseudo tecnologia” que ainda se baseia na extração rústica e no extermínio do ambiente natural.

O Grito das Instituições e a Profecia do Deserto

CItarei incansavelmente os Pesquisadores de instituições renomadas como o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), o Museu Paraense Emílio Goeldi, a UFAM e a UFPA e inúmeros veículos que cobrem a pauta ambiental têm alertado sistematicamente sobre o ponto de não retorno. Cientistas como Philip Fearnside, uma das vozes mais críticas e respeitadas do INPA, preconizam há décadas um futuro sombrio: a transformação da floresta em um deserto ou uma savana degradada.

A ausência de grandes reservas de água no subsolo amazônico torna a vegetação extremamente vulnerável. Sem a floresta para reciclar a chuva, o solo seca, as árvores morrem e o sistema de “Rios Voadores” é desligado, condenando não apenas a região, mas o povo que nela reside e o equilíbrio climático mundial.

A agonia do ribeirinho e a morte invisível nos rios

Enquanto as autoridades negligenciam a fiscalização, o morador da Amazônia pede socorro. O impacto não é apenas visual; é genético e estrutural. Um estudo publicado pela Mongabay Brasil sobre o Rio Negro exemplifica essa tragédia silenciosa. A pesquisa faz um arco de destruição ocasionado pela exploração do petróleo em solos e rios da Amazônia oriental e ocidental. Relatos de acidentes ambientais que atingem diretamente quem mora as marges de rios que interligam países que fazem parte dessa imensa e diversa fauna e flora amazônica.

 Clique aqui para ter acesso aos Impactos Detectados pela Ciência. Algumas pesquisas estão disponíveis, e de fácil acesso na internet, e que contribuem para retirar a Amazônia da escuridão:

Danos Genéticos e Ecossistêmicos: Pesquisadores como o Dr. Tasso A. E. Lima detectaram alterações genéticas em peixes após derramamentos de petróleo. Isso significa que a poluição está alterando o DNA da fauna aquática, comprometendo a reprodução de espécies vitais.

Ameaça à Ictiofauna: O Tambaqui e o Pirarucu, pilares da dieta e da nossa economia, estão sendo atingidos. A perda da biodiversidade genética torna essas populações mais frágeis a doenças, conforme apontado pela ecóloga Dra. Ana Carolina Ferreira.

Insegurança Alimentar: Para o ribeirinho, o peixe contaminado ou escasso significa fome. Ativistas como José Alves reforçam que a destruição da flora e da fauna tropical é, em última análise, a destruição do próprio homem amazônico.

A destruição segue ainda o mesmo modelo que ainda é impulsionado por um modelo econômico predatório: Pecuária e Soja, entre outros (que falei em outro artigo) são responsáveis pela conversão de 80% das áreas desmatadas em pasto; Extração ilegal de ouro, que com o uso do mercúrio envenena os rios e peixes, matando a fauna aquática e afetando a saúde neurológica das comunidades; Grilagem e Madeira: A invasão de terras públicas que precede o fogo e a destruição total e sem falar na falta de oportunidades e geração de emprego e renda dentro da amazônia profunda.

Um Pedido de Socorro secular

A preservação da Amazônia não é uma pauta ideológica, sempre falo sobre isso. Com conhecimento de causa. Mas uma questão de sobrevivência hídrica e alimentar para o planeta.

A “máquina de fazer chuva” está parando.

Se as vozes dos pesquisadores e dos povos da floresta continuarem a ser ignoradas por autoridades movidas pelo lucro imediato, o “Rio Voador” se tornará uma lembrança em um Brasil seco e empobrecido. Em um deserto Amazônico.

 

Fonte: Inpa, Mongabay Brasil, revista pesquisa fapesp*

 

Por Tatiana Sobreira, para a redação da Jovem Pan News- Coluna Soul do Norte