Da farinha e caldo de peixe ao ultraprocessado: o avanço silencioso do “nutricídio” na Amazônia ribeirinha

Tese da USP analisa como a perda de alimentos tradicionais compromete a identidade cultural e agrava riscos à saúde de populações ribeirinhas

O prato de comida do caboclo nortista está perdendo as cores e sabores da floresta e ganhando o cinza dos conservantes. O que pesquisadores chamam de transição nutricional é, na verdade, uma crise de identidade e saúde: o abandono de alimentos ancestrais como o peixe, a pupunha e o açaí em favor de produtos ultraprocessados é crescente em toda a região norte brasileira. O resultado é visível nas estatísticas de saúde pública de Manaus e de todo o estado do Amazonas, onde a balança agora pende perigosamente para o lado da obesidade e das doenças crônicas.

O Brasil enfrenta uma crise de saúde pública em 2025, com 31% dos adultos obesos e 68% com excesso de peso, resultando em mais de 60 mil mortes anuais por doenças como diabetes e AVC.

A região Norte lidera o crescimento em 36,3% de sobrepeso, impulsionado pela substituição de alimentos tradicionais por ultraprocessados baratos, fenômeno que gera obesidade.

Em Manaus, a obesidade atinge 27% dos adultos, enquanto o excesso de peso em adolescentes saltou para 26%, agravado pelo sedentarismo.

Embora a região possua uma biodiversidade riquíssima, a facilidade logística dos produtos industrializados redesenhou o hábito alimentar na Amazônia, exigindo um resgate urgente dos hábitos alimentares regionais para conter o avanço das doenças crônicas.

A Substituição do “Natural” pelo “Prático”

Historicamente, a alimentação ribeirinha e urbana da região Norte era baseada em peixes, farinha e frutos da região.

De acordo com a tese de doutorado de Taís de Souza Lopes (USP), comunidades que antes dependiam da pesca e da roça estão sofrendo uma invasão de calorias vazias.

“A mudança drástica de alimentos locais, como o peixe e a tapioca, coloca em risco tanto a cultura quanto a saúde das populações ribeirinhas, facilitando o surgimento de patologias antes raras, como hipertensão e diabetes”, destaca o estudo realizado com uma abordagem biocultural.

A Ciência dos Superalimentos: O Veredito do INPA

Enquanto a população migra para os embutidos, cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) tentam alertar para o que está sendo deixado para trás. O Dr. Jaime Paiva Lopes Aguiar, um dos maiores especialistas em físico-química de alimentos do Brasil, e a pesquisadora Dra. Francisca das Chagas do Amaral Souza, têm catalogado o potencial nutritivo da flora local.

Os dados são inquestionáveis: o Tucumã e o Buriti possuem concentrações de Vitamina A e E que superam qualquer suplemento industrializado.  A Pupunha e o Açaí (em sua forma pura) são fontes de energia e antocianinas essenciais para a proteção cardiovascular. Ao processar esses alimentos ou substituí-los por derivados de trigo e açúcar, o nortista “abre mão de um coquetel de longevidade por um pacote de inflamação e adoecimento”, explicam os especialistas.

O Alerta da Longevidade: Dr. Euler Ribeiro e a UnATI

Para o Dr. Euler Ribeiro, médico geriatra e reitor da Fundação UnATI (Universidade Aberta à Terceira Idade), o segredo da saúde regional está sendo ignorado, substituido e esquecido pela população local. Em suas investigações sobre os centenários do Amazonas, Ribeiro enfatiza que o consumo de peixes como o jaraqui e o tambaqui — ricos em Ômega 3 — e do Guaraná em bastão (neuroprotetor) são os pilares que permitiam ao nortista envelhecer com qualidade.

“Estamos diante de um paradoxo: o amazônida vive no maior celeiro nutricional do mundo, mas está morrendo precocemente de doenças de países ricos”, afirma o médico. Dados da UnATI correlacionam o abandono da alimentação tradicional com o aumento acelerado de doenças neurodegenerativas e cardiovasculares na terceira idade manauara.

Radiografia do Excesso de Peso no Amazonas

Os números do Vigitel e do SISVAN (2024/2025) desenham um quadro crítico para a região Norte:

  • Manaus: A capital apresenta um dos maiores índices de crescimento de obesidade no país, com 27% de obesos e mais de 60% da população com sobrepeso.

  • Juventude: O excesso de peso entre adolescentes no Amazonas saltou para 26%, refletindo o consumo excessivo de refrigerantes e biscoitos em substituição ao açaí e à farinha de qualidade.

  • Estados do Norte: Pará e Amazonas lideram o ranking regional de doenças metabólicas ligadas à má alimentação.

 

Os atendimentos ambulatoriais de crianças e adolescentes com a doença subiram cerca de 430% em oito anos, segundo o Ministério da Saúde, com sérias consequências negativas.

“No futuro, teremos mais adultos adoecidos. Isso vai impactar tanto o sistema de saúde quanto a economia.”

O desafio não é apenas médico, mas político e cultural.

Resgatar o consumo do tucumã, da pupunha, do buriti e do guaraná em sua forma original não é um “retrocesso”, mas a aplicação de uma tecnologia nutricional que a natureza levou milênios para aperfeiçoar.

Sem políticas que incentivem o acesso ao alimento tradicional, a Amazônia corre o risco de ser uma floresta de fartura habitada por uma população doente.

Fonte: jornal.usp.br, INPA, Ministério da Saúde, IBGE, Vigitel, SISVAN*

Por Tatiana Sobreira, da redação da Jovem Pan News Manaus- Coluna Soul do Norte