Trump diz que pretende abrir setor petrolífero da Venezuela após captura de Maduro

Declaração do presidente dos EUA amplia alcance econômico da ofensiva anunciada por Washington e coloca as reservas venezuelanas no centro do debate geopolítico

Após a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, neste sábado (3), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que pretende abrir o setor petrolífero venezuelano à atuação de grandes companhias norte-americanas. A declaração amplia o alcance político e econômico da ofensiva anunciada por Washington.

Até então, o governo dos Estados Unidos vinha justificando as operações militares no Caribe e o endurecimento das sanções contra Caracas com o argumento de combater o narcotráfico e desarticular rotas de drogas supostamente ligadas a grupos criminosos associados ao regime venezuelano. A sinalização de Trump, no entanto, indica que a estratégia também envolve interesses energéticos.

A Venezuela concentra cerca de 17% das reservas conhecidas de petróleo do mundo, o equivalente a mais de 300 bilhões de barris — volume quase quatro vezes superior ao dos Estados Unidos, segundo organismos internacionais do setor energético. Com a captura de Maduro e a promessa de reorganização do setor, o controle dessas reservas passa a integrar o debate sobre os desdobramentos da ação americana e seus impactos econômicos e geopolíticos na região.

No sábado, Trump divulgou em suas redes sociais uma imagem de Nicolás Maduro após a captura, registrada em 4 de janeiro de 2026.

A dimensão do mercado de petróleo da Venezuela

Segundo a Energy Information Administration (EIA), órgão oficial de estatísticas energéticas dos Estados Unidos, a Venezuela possui a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, estimada em cerca de 303 bilhões de barris. O volume supera o de grandes produtores como Arábia Saudita (267 bilhões) e Irã (209 bilhões).

Grande parte do petróleo venezuelano é classificada como extrapesada, o que exige tecnologia avançada e investimentos elevados para sua extração. Apesar do potencial, a produção permanece subaproveitada em razão da infraestrutura precária e das sanções internacionais que limitam operações e acesso a capital.

De acordo com a Statistical Review of World Energy, publicação anual do Instituto de Energia (EI), a produção de petróleo da Venezuela caiu de um pico de 3,7 milhões de barris por dia em 1970 para um mínimo de 665 mil barris diários em 2021. Em 2024, houve leve recuperação, com produção próxima de 1 milhão de barris por dia — menos de 1% da produção global.

Dependência histórica do petróleo

O petróleo moldou a economia venezuelana ao longo do século XX. Após grandes descobertas nas décadas de 1920 e 1930, o país tornou-se um dos maiores produtores do mundo e, em 1960, participou da fundação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

Em 1976, o governo nacionalizou a indústria petrolífera e criou a PDVSA, transformando o setor em monopólio estatal. Nas décadas seguintes, especialmente durante os governos de Hugo Chávez, grande parte da renda do petróleo foi direcionada a programas sociais, reduzindo investimentos em outros segmentos da economia.

Entre 1998 e 2019, mais de 90% das exportações venezuelanas tiveram origem no petróleo. Com a queda da produção e o avanço das sanções internacionais, a crise econômica se aprofundou. Em 2019, segundo dados do Banco Central da Venezuela, a inflação atingiu 344.510%.

Sanções, PDVSA e relação com os EUA

Os Estados Unidos mantêm relação histórica com o petróleo venezuelano desde os anos 1920. Na década de 1930, o país já atraía grandes companhias estrangeiras, sobretudo norte-americanas e europeias.

Com o avanço das sanções, essa presença diminuiu drasticamente. Atualmente, a Chevron é a única empresa dos EUA que ainda opera na Venezuela, amparada por autorização especial concedida por Washington. A PDVSA, por sua vez, sofreu cortes orçamentários e interrupções em ciclos de manutenção, agravando a queda da produção.

Em 2002, a nomeação do economista Gastón Parra para a presidência da estatal desencadeou uma greve que paralisou a empresa por quase dois meses e resultou na demissão de cerca de 20 mil funcionários.

Petróleo e geopolítica internacional

Apesar das dificuldades, o petróleo segue como pilar da economia venezuelana. Segundo a Reuters, em 2024 a PDVSA faturou cerca de US$ 17,5 bilhões com exportações, com produção média pouco acima de 800 mil barris por dia.

Especialistas avaliam que o petróleo venezuelano é estrategicamente relevante para os Estados Unidos por ser compatível com refinarias norte-americanas. Antes do endurecimento das sanções em 2019, os EUA eram os principais compradores do petróleo venezuelano. Após as restrições, Caracas passou a direcionar exportações para a China, em acordos de petróleo em troca de empréstimos, intensificando a disputa geopolítica.

Segundo a Reuters, a Venezuela vinha quitando parte desses empréstimos por meio do envio de petróleo bruto transportado em superpetroleiros de grande porte. Dois desses navios se aproximavam da costa venezuelana em dezembro, quando Trump anunciou um bloqueio a todas as embarcações que entrassem ou saíssem do país.

Impacto econômico

Estimativas baseadas em dados da PDVSA e da Reuters indicam que as exportações de petróleo responderam por cerca de 58% da receita da estatal em 2024. No mesmo período, US$ 10,41 bilhões foram destinados ao Tesouro venezuelano em impostos e royalties.

O Banco Central da Venezuela informou que a economia do país cresceu 7,71% no primeiro semestre de 2025, impulsionada principalmente pelo setor de hidrocarbonetos. No terceiro trimestre de 2025, o PIB avançou 8,71% na comparação anual, com crescimento de 16,12% na atividade petrolífera.

Apesar de deter uma das maiores reservas naturais do mundo, a Venezuela permanece entre as economias mais vulneráveis da América Latina, com desempenho fortemente condicionado ao petróleo e às tensões geopolíticas internacionais.

 

 

Com Informações do G1

Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus