Rio Negro inicia 2026 acima dos 20 metros em Manaus, mas especialistas descartam cheia intensa

Após três anos abaixo da média, nível do rio indica recuperação hidrológica; La Niña atua com baixa intensidade, apontam pesquisadores

Depois de três anos consecutivos abaixo da média histórica, o nível do rio Negro em Manaus iniciou 2026 acima da cota de 20 metros, de acordo com dados do Porto da capital. Apesar do cenário de recuperação observado no início do ano, especialistas afirmam que não há indicativos de uma cheia intensa para este ciclo hidrológico.

No primeiro dia de janeiro, o rio Negro marcou 22,03 metros em Manaus. O patamar se aproxima da maior cota registrada no fim de janeiro de 2025, quando o nível chegou a 22,20 metros. A diferença em relação aos últimos anos é significativa: no início de 2023, o nível era de 19,24 metros; em 2024, 18,70 metros; e, em 2025, 18,40 metros.

A leitura dos dados aponta para um processo de recuperação dos rios amazônicos. Monitoramentos do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre, da Universidade do Estado do Amazonas, indicam que as principais calhas da Bacia Amazônica — Solimões, Madeira e Negro — apresentam níveis compatíveis com a média histórica para o período.

“Levando em consideração a análise dos percentuais hidrológicos e a evolução das cotas observadas neste período de subida, o rio Negro em Manaus apresenta comportamento compatível com a normalidade hidrológica”, afirmou a pesquisadora Luciana Loureiro, do Labclim. Segundo ela, os níveis registrados refletem uma “resposta coerente ao volume de chuvas observado.”

Influência do rio Solimões

O comportamento do rio Solimões é apontado como um dos principais fatores que influenciam diretamente o nível do Negro em Manaus e na Região Metropolitana. O coordenador do Labclim, Leonardo Vergasta, explicou que o Solimões apresentou recuos recentes em municípios como Tabatinga, Tefé e Coari, reflexo de chuvas abaixo da normalidade no Peru durante o mês de dezembro.

“Mesmo assim, tudo está dentro da normalidade para este período do ano. Manaus deve sentir o reflexo do que ocorre no Solimões, com uma possível redução no ritmo de subida do rio Negro”, explicou.

El Niño, La Niña e o cenário atual

Os níveis mais elevados em comparação aos anos anteriores também são explicados pela alternância de fenômenos climáticos. Em 2023, a atuação intensa do El Niño — com efeitos prolongados até 2024 — contribuiu para a estiagem mais severa já registrada no Amazonas, com redução significativa das chuvas e queda acentuada dos níveis dos rios.

No início de 2026, o fenômeno La Niña atua no sentido oposto, favorecendo o aumento das chuvas devido ao resfriamento do Oceano Pacífico. Ainda assim, segundo os pesquisadores, o episódio atual é de baixa intensidade e não sustenta a hipótese de níveis acima da média durante o pico da cheia, que costuma ocorrer entre junho e julho.

“O La Niña tem maior efeito na região central da Bacia Amazônica, como Manaus, Parintins e Itacoatiara, mas é considerado fraco. Não há, no momento, preocupação com uma cheia intensa”, afirmou Vergasta.

Mudanças climáticas e eventos extremos

Além das marcas pontuais dos níveis dos rios, os pesquisadores chamam atenção para os impactos das mudanças climáticas na frequência de eventos extremos. A alternância entre cheias e secas faz parte da dinâmica natural da região, mas a redução do intervalo entre esses eventos tem sido motivo de alerta.

“Antes, uma cheia intensa era seguida por uma seca extrema cerca de dez anos depois. Hoje, esses extremos ocorrem com muito mais frequência”, explicou Vergasta, ao relacionar o cenário ao aumento das emissões de gases de efeito estufa e ao desmatamento.

Estudo da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, em parceria com o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, projeta que, até 2040, os rios brasileiros poderão apresentar reduções significativas de vazão. Na Amazônia, as quedas podem chegar a 50%, afetando diretamente a geração de energia, já que hidrelétricas operam atualmente abaixo de metade da capacidade instalada.

 

Com Informações do Portal A Crítica

Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus