Depois de um vazamento registrado durante a perfuração de um poço exploratório na costa do Amapá, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis iniciou uma auditoria para verificar as condições de segurança da sonda operada pela Petrobras na bacia da Foz do Amazonas.
A fiscalização ocorre entre os dias 2 e 7 de fevereiro e foi motivada por um incidente registrado em 4 de janeiro, quando cerca de 18 mil litros de fluido de perfuração vazaram durante as atividades no poço exploratório Morpho, localizado no bloco 59, a aproximadamente 175 quilômetros da costa do Amapá.
O fluido vazado, conhecido como “lama de perfuração”, é utilizado para resfriar a broca, remover fragmentos de rocha e controlar a pressão do poço. Segundo a Petrobras, trata-se de um material à base de água, classificado como biodegradável e dentro dos limites de toxicidade permitidos. A empresa afirma que o vazamento foi contido e que não houve liberação de petróleo.
Histórico de acidentes chama atenção
Apesar disso, o episódio voltou a chamar atenção para o histórico de acidentes mecânicos na chamada margem equatorial. Levantamento da InfoAmazonia, com base em dados da própria ANP, mostra que uma em cada quatro perfurações realizadas na costa amazônica desde 1970 foi interrompida por falhas técnicas.
Nas bacias da Foz do Amazonas, Pará-Maranhão e Barreirinhas, 41 dos 156 poços autorizados tiveram as atividades paralisadas por acidentes mecânicos. Só na Foz do Amazonas, onde fica o bloco 59, 27 dos 96 poços perfurados enfrentaram esse tipo de problema — uma média de um acidente a cada 3,5 perfurações. Em comparação, nas bacias de Campos e Santos, no Sudeste, a taxa fica entre 5% e 7%.
Até hoje, nenhum poço perfurado na costa amazônica entrou em produção comercial de petróleo ou gás.
Fiscalização e suspensão
Em nota, a ANP informou que a perfuração no bloco 59 segue suspensa e só poderá ser retomada após autorização da agência. O objetivo da auditoria, segundo o órgão, é verificar o funcionamento do Sistema de Segurança Operacional e avaliar se as normas estão sendo cumpridas.
A Petrobras tem 90 dias para apresentar um relatório detalhado sobre as causas do vazamento. O documento também pode resultar em novas exigências ou sanções administrativas, caso sejam identificadas irregularidades.
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis e o Ministério Público Federal também pediram esclarecimentos à empresa, incluindo informações sobre possíveis impactos ambientais e medidas para evitar novos episódios.
Preocupação de ambientalistas e comunidades
Organizações ambientais e representantes de comunidades tradicionais veem o vazamento como um sinal de alerta. Para a diretora-executiva do Instituto Internacional Arayara, Nicole Oliveira, o episódio reforça riscos estruturais da operação.
“A exploração de petróleo na margem equatorial envolve riscos elevados e recorrentes, que não se resumem a uma falha pontual”, afirmou.
Já o Greenpeace Brasil avalia que a falta de estudos atualizados sobre a dinâmica das correntes marinhas dificulta qualquer avaliação precisa sobre os impactos do vazamento.
“Esse vazamento aconteceu a quase três mil metros de profundidade. A gente não sabe para onde esse fluido foi, nem como se dispersou”, disse Mariana Andrade, coordenadora de oceanos da organização.
Comunidades indígenas e tradicionais do Amapá também cobraram mais transparência e consulta prévia, prevista em acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário. Para essas populações, a preocupação vai além do episódio atual e envolve o risco de acidentes mais graves no futuro.
O poço onde ocorreu o vazamento está a cerca de 50 quilômetros do Sistema de Recifes da Amazônia, um ecossistema raro e pouco estudado, além de áreas sensíveis como manguezais, terras indígenas e unidades de conservação.
Debate segue aberto
O caso ocorre em um momento de pressão para a ampliação da exploração de petróleo na margem equatorial, considerada uma nova fronteira energética no país. Especialistas alertam que decisões tomadas agora podem servir de precedente para a liberação de dezenas de outros blocos na costa amazônica.
Enquanto a apuração técnica segue em andamento, a auditoria da ANP deve definir se a operação poderá ser retomada e em quais condições.
Com Informações do Site Infoamazônia
Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus






