Exclusiva: Formação cultural vira caminho de renda para artistas da periferia em Manaus

Projeto idealizado por Jander Manauara forma 150 agentes culturais da periferia com foco em empreendedorismo criativo e geração de renda em Manaus.

Durante muito tempo, viver de cultura em Manaus significou improviso, informalidade e pouca previsibilidade. Artistas, produtores e coletivos aprenderam a criar, mas quase nunca tiveram acesso às ferramentas necessárias para transformar essa criação em trabalho estruturado. É nesse cenário que um movimento recente começa a chamar atenção na cidade.

Essa visão foi detalhada pelo agente cultural e diretor do projeto, Jander Manauara, em entrevista exclusiva ao programa Minuto a Minuto, da Jovem Pan News Manaus, onde ele falou sobre a origem da ‘Trilha Urbanos da Amazônia’, os critérios de participação, o impacto econômico da formação e a necessidade de enxergar a cultura como parte estruturante do mercado de trabalho na capital amazonense.

Durante a conversa, Jander explicou que a iniciativa surgiu a partir da própria vivência nas periferias de Manaus e da constatação de que, apesar da intensa produção cultural da cidade, grande parte dos artistas e produtores permanece à margem dos mecanismos formais de acesso a renda e políticas públicas.

A proposta foi simples e, ao mesmo tempo, pouco comum no campo cultural local: oferecer formação prática em áreas como gestão, formalização, educação financeira, comunicação e elaboração de projetos, temas que raramente fazem parte do percurso de quem atua com arte.

Cultura além do palco

Em entrevista à Jovem Pan News Manaus, o agente cultural e diretor da iniciativa, Jander Manauara, explicou que a ideia surgiu da própria vivência no hip-hop e no trabalho comunitário.

A trilha nasceu de pensar os agentes culturais como uma rede. Não só o artista que sobe no palco, mas todo mundo que trabalha em volta da cultura. Produção, gestão, comunicação… tudo isso é cultura também”, afirmou.

Segundo ele, o conceito de agente cultural ainda é pouco compreendido, inclusive dentro das próprias comunidades.

As pessoas acham que cultura é só cantar, dançar ou tocar. Mas existe uma cadeia enorme por trás disso. Carnaval, festivais, eventos… é muita gente trabalhando e gerando renda”, explicou.

Formação como resposta à informalidade

Ao longo de 120 horas presenciais, os participantes tiveram contato com noções básicas de organização profissional, algo que, segundo Jander, faz falta mesmo entre artistas experientes.

Tem muita gente talentosa que acaba ficando pelo caminho porque não sabe precificar, não sabe se formalizar ou acessar um edital. A formação tenta preencher esse vazio”, disse.

A procura pelo curso chamou atenção: quase 1.200 pessoas se inscreveram para as 150 vagas disponíveis, o que revela uma demanda reprimida por capacitação cultural em Manaus.

Renda, permanência e acesso

Além das aulas, os participantes receberam uma bolsa de R$ 800, vinculada à frequência. Para muitos, esse recurso foi determinante para conseguir permanecer no curso.

Se não tiver dinheiro na conta, não existe justiça social. A galera da periferia já sabe o que fazer com recurso quando ele chega”, afirmou Jander durante a entrevista.

Segundo ele, a injeção direta desse dinheiro também teve reflexo na economia local, movimentando serviços e profissionais da própria cidade.

Histórias diferentes, mesma busca

Entre os formandos há músicos, produtores, coletivos, comunicadores, pessoas que já atuavam com cultura e outras que só passaram a se reconhecer como profissionais durante o processo.

Tem gente que entrou sem se entender como artista e hoje se vê como gestor cultural, comunicador ou produtor. Isso muda a forma como a pessoa se coloca no mercado”, avaliou.

O que fica depois do certificado

A cerimônia de encerramento acontece no Luso Sporting Club, no Centro de Manaus, e marca a conclusão formal da formação. Mas, para quem participou, o impacto vai além do certificado.

A cultura sempre esteve presente na periferia. O que faltava era acesso, informação e oportunidade de disputar de igual para igual”, resumiu Jander.

A experiência reacende um debate antigo na cidade: o de que políticas culturais não se limitam a eventos ou espetáculos, mas passam, necessariamente, pela formação de pessoas e pela criação de caminhos reais de trabalho dentro da economia criativa.

 

Por Ismael Oliveira – Redação Jovem Pan News Manaus