O salmão comercializado nos supermercados em 2026 é resultado, em grande parte, da expansão da criação em cativeiro registrada nas últimas quatro décadas. Desde os anos 1980, o consumo mundial do peixe triplicou, impulsionado pela produção em larga escala em países como Chile, Noruega e Escócia.
Nas fazendas marinhas, os peixes vivem confinados em gaiolas, em ambientes com alta densidade. Nessas condições, ficam mais vulneráveis a doenças, parasitas e comportamentos agressivos. O cenário é descrito no livro Un poisson nommé saumon: enquête sur une industrie dévastatrice, do jornalista francês Maxime Carsel, publicado recentemente na França.
A obra aborda as condições dos cativeiros e é lançada no momento em que a multinacional Pure Salmon planeja expandir sua produção para oito países, incluindo a França, com um projeto na região de Gironda. A iniciativa é contestada por organizações ambientalistas.
Segundo o autor, há fazendas onde os peixes se atacam, morrem ou são afetados por parasitas como os piolhos-do-mar. “Há fazendas de salmão onde os peixes se comem uns aos outros, morrem ou são devorados vivos pelos piolhos-do-mar”, afirmou em entrevista à RFI.
Uso de agrotóxicos
Para controlar a proliferação de parasitas, produtores utilizam substâncias como deltametrina, azametifos e benzoato de emamectina. Esses produtos podem ser dispersados pelas correntes marítimas e atingir outros ecossistemas.
Resíduos químicos também podem permanecer no peixe até o consumo. Diante disso, autoridades sanitárias da Noruega recomendaram que famílias limitem a ingestão do salmão, apesar de o país ser o maior produtor mundial.
Os principais mercados consumidores são Japão, Rússia, Estados Unidos e França. Para atender à demanda, empresas expandiram a produção para países do Sul Global, incluindo regiões da África.
O salmão é um peixe carnívoro e, nos cativeiros, é alimentado com ração à base de farinha animal e soja. Em média, são necessários de 1 a 2 quilos de outros peixes para produzir 1 quilo de salmão.
Impacto na pesca africana
Na costa africana, cresceram as usinas de produção de farinha e óleo de peixe, utilizando pescados locais. Segundo Aliou Ba, diretor de campanhas de pesca do Greenpeace África, cerca de 500 mil toneladas de peixe são usadas anualmente para esse fim.
“Eles usam, a cada ano, 500 mil toneladas de peixe para produzir farinha e óleo de peixe. Meio milhão de toneladas poderia alimentar aproximadamente 40 milhões de pessoas na África”, declarou.
Em países como Mauritânia, Senegal e Gâmbia, pescadores artesanais relatam redução dos cardumes de sardinhas. Diante do impacto, governos passaram a restringir o uso desses peixes para a indústria, mas embarcações migraram para áreas mais ao sul, como a Guiné-Bissau.
Aliou Ba afirma que a exploração excessiva afeta comunidades locais, gera desemprego e compromete os ecossistemas marinhos.
Condições de trabalho no Chile
O livro também aborda as condições de trabalho nas fazendas de salmão. No Chile, segundo maior produtor mundial, foram registrados acidentes envolvendo funcionários.
Segundo Carsel, trabalhadores perderam dedos e mãos, e mergulhadores responsáveis pela limpeza das gaiolas morreram após acidentes com equipamentos. Estimativas apontam que cerca de cem mergulhadores morreram no país nos últimos anos.
Expansão da indústria
Apesar das denúncias, o setor mantém planos de crescimento. A empresa norueguesa Mowi, maior produtora mundial, pretende ampliar sua produção anual de 520 mil para 600 mil toneladas até 2029.
A China investe na produção para atender à demanda interna, enquanto Dubai amplia fazendas instaladas em áreas desérticas.
Para o autor, a principal possibilidade de mudança está na conscientização dos consumidores sobre a origem do produto e os impactos ambientais e sociais da cadeia produtiva.
Com informações da Terra*
Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus






