Durante anos, fazer bolos era apenas um refúgio. Uma paixão cultivada desde a infância, restrita à cozinha de casa e aos momentos livres. O que parecia apenas talento doméstico se transformou em um negócio estruturado, com fábrica, loja física e geração de empregos no bairro Coroado, zona Leste de Manaus.
Em entrevista exclusiva ao programa Minuto a Minuto, da Jovem Pan News Manaus, Carina Coelho contou como saiu da condição de dona de casa para comandar a Carina’s Cake — empresa que hoje, além de produzir centenas de bolos, tem como política formar jovens sem experiência profissional.
O hobby que virou decisão
A história não começou com planejamento empresarial, mas com incentivo externo. Amigos insistiam que ela deveria vender aquilo que já fazia tão bem.
Carina relembra que a confeitaria sempre esteve presente em sua vida, mas nunca foi pensada como carreira.
Olha, a minha história pelo bolo já é desde infância, né? É algo que eu amo. Mas eu não imagina que se tornaria um negócio para mim”
A virada aconteceu quando passou a enxergar no talento uma oportunidade de renda. Em agosto de 2018, ela decidiu tentar. Sem investidores, sem estrutura e sem garantias.
O capital inicial foi exato e simbólico.
Eu comecei com R$ 296,00.”
O valor permitiu a produção dos primeiros bolos, vendidos a R$ 10 cada. Ao lado de um amigo que permanece com ela até hoje, começou vendendo na rua, depois em frente de casa.
A gente começou a vender na rua. E eu não imaginava que ia tomar a proporção que tomou.”
Crescimento no improviso e desafios reais
O início foi marcado por improviso e superação diária. Vendia 10 bolos, produzia mais 10. A produção era totalmente manual e individual.
Os sabores eram variados: chocolate, milho, maracujá, formigueiro mesclado, macaxeira, abacaxi caramelizado, banana caramelizada, buscando atingir diferentes públicos. Mas empreender em Manaus, naquele período, significava enfrentar obstáculos logísticos e de abastecimento.
Carina lembra que encontrar insumos não era simples.
Naquele ano, nós não tínhamos essa facilidade de encontrar os insumos como hoje. Chocolate em pó era um grande desafio.”
A dificuldade não era apenas matéria-prima. Faltava transporte. Em um episódio marcante, após fazer uma compra em atacado, a pessoa que buscaria a mercadoria não apareceu.
Eu lembro de ter chorado lá na espera, sem saber como ia levar pra casa.”
A cena poderia ter sido um ponto final. Tornou-se ponto de virada.
Aquilo me motivou a tirar a minha habilitação e conquistar a minha própria condução. E foi o que aconteceu.”
A decisão que virou propósito: formar profissionais
Mais do que vender bolos, Carina tinha um plano silencioso. Ela mesma enfrentou dificuldades para conseguir o primeiro emprego na juventude. A exigência de experiência sempre foi uma barreira.
Por isso, quando começou a crescer, decidiu que faria diferente.
Se eu conseguisse, eu contrataria jovens que não têm profissão, pra ensiná-los e dar a eles uma profissão. Hoje, eu não contrato profissionais, eu formo profissionais. Todos que estão comigo na produção vêm zerados, eles não têm conhecimento e eu ensino tudo.”
A fábrica funciona como uma espécie de escola prática. Jovens entram sem experiência e saem com profissão aprendida. Alguns permanecem, outros seguem caminhos próprios, inclusive abrindo seus próprios negócios.
Eu fui um incentivo pra que elas abrissem o próprio negócio. E isso me inspira.”
Da porta de casa à fábrica no Coroado
O que começou em frente à residência hoje funciona em estrutura própria. A Carina’s Cake opera como fábrica e loja na rua Santo Antônio, no bairro Coroado.
O crescimento deixou de ser informal. A produção ganhou escala, equipe e organização. O foco permanece no produto que deu origem a tudo: o bolo.
Entre os sabores, um domina as vendas.
O nosso carro-chefe é chocolate. Não tem um bolo que ainda bata mais do que ele.”
Mas há espaço para identidade própria, como o bolo de laranja, receita autoral.
Ele é receita minha. É criação minha. E é um bolo super leve e saboroso.”
Carina reforça que a marca prioriza ingredientes naturais.
Eu não gosto muito de essência. Nossos bolos são naturais.”
O ano em que quase desistiu
Se a trajetória parece linear, ela mesma faz questão de quebrar essa ideia. Em 2025, já com fábrica estruturada, equipe formada e marca conhecida, viveu o momento mais difícil da jornada.
Foi o ano que eu mais pensei em desistir.”
A queda nas vendas e os desafios econômicos abalaram a confiança.
Eu, sinceramente, achei que eu não iria conseguir.”
Mas havia um fator determinante: responsabilidade coletiva. Funcionários, fornecedores e famílias dependiam da continuidade do negócio.
Quando eu olhava para todos eles… não é só eles. Tem fornecedores, famílias. Eu não tinha essa opção.”
A equipe permaneceu unida.
Conseguimos. Eu e a equipe todinha. Eles vestiram a camisa comigo.”
A história de Carina Coelho não se resume à expansão de uma confeitaria. Trata-se de um modelo de empreendedorismo com impacto direto na formação profissional de jovens que, muitas vezes, não conseguem a primeira oportunidade formal.
De R$ 296 investidos em 2018 a uma fábrica consolidada em Manaus, a CEO da Carina’s Cake representa uma geração de empreendedores que cresceram no improviso, aprenderam na prática e transformaram dificuldade em estratégia.
A paixão de infância virou empresa. A empresa virou escola. E o negócio, que começou com dez bolos vendidos na rua, hoje sustenta uma rede de trabalho, renda e esperança.
Por Ismael Oliveira – Redação Jovem Pan News Manaus






