Pobreza afeta desenvolvimento motor de bebês a partir dos seis meses, aponta estudo

Pesquisa acompanhou crianças no interior de São Paulo e indica que estímulos simples podem reduzir atrasos causados pela vulnerabilidade social
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasi
Bebês que vivem em lares em situação de pobreza apresentam atrasos no desenvolvimento motor a partir dos seis meses de idade, segundo estudo da Universidade Federal de São Carlos. A pesquisa relacionou o repertório de movimentos das crianças às condições socioeconômicas das famílias.
O levantamento acompanhou 88 bebês no interior de São Paulo e mostrou que aqueles em situação de vulnerabilidade passaram a agarrar objetos, virar e sentar mais tarde do que crianças de famílias com melhores condições. Os resultados foram publicados no início de fevereiro na revista científica Acta Psychologica.
De acordo com a pesquisadora Caroline Fioroni Ribeiro da Silva, autora do estudo, aos seis meses os bebês em situação de pobreza apresentavam menor variação postural e menor capacidade de exploração do ambiente. Em alguns casos, não conseguiam executar movimentos básicos para a idade.
A pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
Relação entre desenvolvimento motor e aprendizagem
Segundo a pesquisadora, o desenvolvimento motor está diretamente ligado ao processo de aprendizagem na infância. Estudos anteriores indicam que crianças com atrasos nessa fase inicial podem apresentar, ao longo da vida escolar, dificuldades de concentração, déficit de atenção, problemas de coordenação motora e menor rendimento acadêmico.
Esses impactos ocorrem porque o movimento é parte essencial do processo de exploração do ambiente, da construção da autonomia e da formação das habilidades cognitivas.
Apesar disso, Caroline ressalta que ainda são necessários estudos de longo prazo para estabelecer relações diretas entre pobreza, desenvolvimento motor e desempenho escolar.
Reversão dos atrasos com estímulos adequados
O estudo identificou que os atrasos motores podem ser revertidos em curto prazo quando há estímulo adequado. Aos oito meses, parte dos bebês avaliados já não apresentava diferenças significativas em relação às demais crianças.
A melhora foi associada, principalmente, ao engajamento das mães e responsáveis, que passaram a adotar práticas simples no dia a dia, como:
•Conversar e cantar para o bebê;
•Colocar a criança de barriga para baixo;
•Estimular o contato com objetos de diferentes texturas;
•Incentivar a exploração do ambiente.
Essas ações não exigem investimentos financeiros e podem ser incorporadas à rotina familiar.
Importância do “tummy time”
A permanência do bebê de bruços sobre uma superfície segura, conhecida como “tummy time”, foi apontada como uma das práticas mais relevantes. Essa posição fortalece os músculos do pescoço, ombros, costas e braços, preparando a criança para etapas posteriores, como engatinhar, sentar e ficar em pé.
Além disso, favorece o equilíbrio, a coordenação e a percepção corporal.
A pesquisa destacou que ambientes familiares desestruturados afetam diretamente o desenvolvimento infantil. A ausência de diálogo, a comunicação conflituosa, o isolamento social e a baixa interação com outras crianças contribuem para comportamentos agressivos e dificuldades de socialização.
Em muitos casos, as mães eram adolescentes e não tinham acesso a orientações sobre estímulos na primeira infância. Nessas situações, o acompanhamento por profissionais de saúde foi considerado determinante.
A pesquisadora defende a ampliação de visitas domiciliares por equipes da atenção básica, fisioterapeutas e agentes comunitários, como forma de orientar as famílias desde os primeiros meses de vida da criança.
Limitações estruturais nas residências
Nas residências mais pobres, os bebês permaneciam mais tempo em carrinhos, cadeirinhas ou espaços restritos. A falta de área livre para movimentação reduzia as oportunidades de exploração do ambiente.
Outro fator observado foi a presença de muitos moradores no mesmo domicílio, o que pode gerar ambientes mais desorganizados e com menos espaços seguros para brincadeiras.
Por outro lado, a presença constante de pai ou mãe no mesmo endereço e a maior escolaridade materna estiveram associadas a melhores resultados no desenvolvimento motor.
Brinquedos e recursos acessíveis
O estudo apontou que não é necessário o uso de brinquedos caros para estimular o desenvolvimento. Objetos improvisados, como chocalhos feitos com garrafas e grãos, bolas de papel, panos coloridos e utensílios domésticos seguros, contribuem para a motricidade fina e grossa.
A interação direta entre adultos e bebês foi considerada mais relevante do que a quantidade de brinquedos disponíveis.
Especialistas apontam que os resultados reforçam a importância de políticas públicas voltadas à primeira infância, especialmente em regiões vulneráveis. Programas de orientação parental, fortalecimento da atenção primária à saúde e acompanhamento familiar são considerados estratégicos para reduzir desigualdades desde os primeiros anos de vida.
O Ministério da Saúde recomenda o acompanhamento regular do desenvolvimento infantil nas unidades básicas, com avaliações periódicas e orientação às famílias.
Cenário global da pobreza infantil
Segundo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância, cerca de 400 milhões de crianças vivem na pobreza no mundo. O documento “Situação Mundial das Crianças 2025” aponta que esse grupo enfrenta privações relacionadas à saúde, educação, nutrição e proteção social.
No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que milhões de crianças vivem em domicílios com renda insuficiente para atender às necessidades básicas, o que amplia os riscos ao desenvolvimento.
Recomendações dos pesquisadores
A autora do estudo defende que o combate aos atrasos no desenvolvimento deve envolver ações integradas entre saúde, educação e assistência social. Entre as principais recomendações estão:
•Ampliação das visitas domiciliares;
•Capacitação de profissionais da atenção básica;
•Orientação contínua às famílias;
•Criação de espaços comunitários seguros para crianças;
•Monitoramento sistemático do desenvolvimento infantil.
Segundo Caroline, investir na primeira infância é uma das formas mais eficientes de reduzir desigualdades ao longo da vida.
Com informações da Agência Brasil*

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus