Pesquisa brasileira devolve movimentos a pacientes com lesão completa da medula após décadas de estudo

Tratamento experimental com proteína derivada da placenta humana mostra resultados inéditos e avança para testes clínicos sob avaliação da Anvisa

Após cerca de 25 anos de pesquisa, cientistas brasileiros alcançaram um resultado considerado inédito no tratamento de lesões completas da medula espinhal: a recuperação parcial de movimentos em pacientes que haviam perdido totalmente a mobilidade. O avanço é fruto de um tratamento experimental baseado em uma proteína desenvolvida a partir da placenta humana, que estimula a reconexão de neurônios lesionados.

Os estudos tiveram início no fim da década de 1990, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e avançaram da pesquisa básica em laboratório para testes em animais e, mais recentemente, para ensaios clínicos em humanos. A terapia ainda está em fase experimental e depende da ampliação do número de casos para avaliação de segurança pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Um dos primeiros pacientes a apresentar recuperação funcional foi o bancário Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico após um grave acidente de carro em 2018. Ele sofreu uma lesão cervical com esmagamento completo da medula espinhal.

“Acordei pós-cirurgia sem fazer movimento algum. Braço, dedos, pernas, quadril, abdômen, nada mexia”, relatou.

Sem saber inicialmente, Bruno foi submetido ao procedimento experimental com autorização da família. Duas semanas depois, surgiram os primeiros sinais de resposta.

“Consegui mexer o dedo do pé. Na hora eu pensei: ‘Tá bom, vou fazer o que com o dedão do pé?’”, contou.

Com o passar do tempo, ele passou a recuperar movimentos mais amplos, conseguiu erguer as pernas e voltou a andar com auxílio de bengala.

“Hoje em dia, consigo me movimentar inteiro, claro que com certas limitações. Consigo levantar, andar, dançar. Isso me garantiu minha independência”, afirmou.

Como funciona o tratamento

Em lesões graves da medula espinhal, a comunicação entre o cérebro e os músculos é interrompida. Diferentemente de outros tecidos do corpo, o sistema nervoso central apresenta baixa capacidade de regeneração na vida adulta, pois reduz a produção de proteínas que orientam o crescimento dos neurônios.

Durante o desenvolvimento embrionário, essa função é exercida pela laminina, proteína que forma uma espécie de malha ao redor das células nervosas e orienta suas conexões. Com o tempo, essa substância praticamente desaparece do organismo.

A solução encontrada pelos pesquisadores foi recriar esse ambiente biológico. A chamada polilaminina é uma versão produzida em laboratório da laminina natural. Aplicada diretamente no local da lesão, ela forma uma estrutura que os neurônios conseguem reconhecer, permitindo que voltem a crescer, atravessem a área lesionada e restabeleçam conexões.

Segundo os pesquisadores, poucas conexões funcionais já são suficientes para que o impulso elétrico volte a circular e possibilite movimentos. Os melhores resultados ocorrem quando o tratamento é aplicado pouco tempo após o trauma, antes que a cicatriz da medula se consolide completamente.

Avanço científico brasileiro

A pesquisadora Tatiana Sampaio está à frente de um dos grupos responsáveis pelo desenvolvimento da polilaminina. Após quase três décadas de dedicação à pesquisa básica e aplicada, ela coordena os estudos que apontam para uma nova perspectiva no tratamento de lesões medulares.

Os primeiros testes em humanos indicaram recuperação de sensibilidade e retomada de movimentos em pacientes com quadros graves, resultados considerados promissores pela comunidade científica. O tratamento, no entanto, não é uma cura imediata e depende de reabilitação intensiva e acompanhamento fisioterapêutico.

O avanço ainda precisa cumprir etapas regulatórias antes de ser disponibilizado em larga escala, mas representa um marco na medicina brasileira e abre novas possibilidades para pessoas com lesão completa da medula espinhal.

 

Com Informações do Site Brasil Paralelo

Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus