Exclusiva: Neurocientista Maria da Conceição Barbosa alerta para crise silenciosa na saúde mental infantil em Manaus

Especialista em neuropsicologia defende mapeamento do neurodesenvolvimento e maior preparo das escolas para identificar sinais precoces.

O avanço das pesquisas em Neurociências e Educação tem reforçado uma compreensão essencial: o desenvolvimento humano é resultado da interação entre fatores biológicos, genéticos e culturais. Estudar esse processo significa analisar como as pessoas mudam ao longo da vida e também aquilo que permanece relativamente estável.

Na infância, esse olhar se torna ainda mais delicado. Trata-se de uma fase marcada por transformações físicas, cognitivas, emocionais e sociais intensas. E é justamente nesse período que sinais importantes podem surgir — ou passar despercebidos.

Diante do aumento de casos de ansiedade, depressão, irritabilidade e dificuldades de aprendizagem cada vez mais precoces, a saúde mental de crianças e adolescentes tornou-se uma das maiores preocupações atuais. Para compreender os impactos no cérebro em desenvolvimento, o programa conversou com a neurocientista e neuropsicóloga Maria da Conceição Barbosa, especialista em cérebro e referência em avaliação e reabilitação neurocognitiva no Amazonas.

Psicóloga clínica, especialista em Neuropsicologia pelo Instituto Neurológico de São Paulo (INESP), com formação em Psicologia Jurídica pelo Centro Universitário do Norte (UNINORTE), especialização em Gestão de Emergências em Saúde Pública pelo Hospital Sírio-Libanês e pós-graduação em Neurociências pelo Instituto de Desenvolvimento Educacional (IDE), Maria da Conceição é fundadora do Instituto de Neuropsicologia do Amazonas (INEPAM), onde atua com foco na infância vulnerável.

Para ela, discutir saúde mental infantil é discutir o futuro da sociedade.

Falar dessa demanda é falar do futuro. O que nós queremos para esses jovens? Porque os transtornos do neurodesenvolvimento começam na primeira infância. Se não forem tratados, a criança leva isso para a adolescência”, afirma.

Segundo a especialista, muitos comportamentos interpretados como “rebeldia” ou “falta de limites” podem ser reflexo de transtornos não identificados precocemente. E, na maioria das vezes, quem primeiro percebe que algo não vai bem é a escola.

Os nossos pacientes vêm, geralmente, por encaminhamento da escola, não da medicina. É o professor que observa que a criança não interage, não presta atenção ou apresenta agressividade. Ele é o primeiro marcador”, explica.

O desafio, no entanto, está na preparação desses profissionais. Em salas de aula heterogêneas, o professor precisa lidar com alunos diagnosticados, não diagnosticados e com diferentes níveis de habilidade — muitas vezes sem suporte técnico adequado.

Hoje, o professor acaba assumindo um papel quase terapêutico, mas ele não foi preparado para isso. E ainda pode ser mal interpretado pelas famílias. Falta gestão na saúde pública voltada às etapas do neurodesenvolvimento”, pontua.

Altas habilidades e o outro lado da exclusão

Se por um lado há crianças com dificuldades de aprendizagem, por outro existem aquelas com altas habilidades e superdotação — igualmente carentes de políticas públicas específicas.

Maria da Conceição chama atenção para os chamados casos de hiperlexia, quando a criança demonstra habilidades avançadas de leitura e linguagem muito cedo.

Eu tenho crianças de dois anos que já chegam sabendo ler, escrever e falar inglês. É algo que impressiona. Mas essas crianças também sofrem, porque ficam entediadas em sala e acabam sendo vistas como problemáticas”, relata.

Na clínica, ela já identificou casos com QI significativamente acima da média.

Dentro da média considerada normal, o QI gira em torno de 85 a 100. Eu já avaliei criança com 148. São perfis que precisam de acompanhamento específico.”

Apesar disso, segundo ela, Manaus ainda não possui, no serviço público, programas estruturados para atender crianças com altas habilidades.

No âmbito público, eu desconheço qualquer escola específica para superdotados. Existe uma instituição privada de alto padrão, mas que não atende a maioria da população. O primeiro passo seria mapear essas crianças.”

Para a especialista, a ausência de diagnóstico e direcionamento adequado pode gerar frustração e até sofrimento emocional. “Uma criança com alta habilidade que não é compreendida pode desenvolver ansiedade, isolamento e comportamento adverso. Ela sabe muito, mas não se sente pertencente.”

O impacto das telas no cérebro em formação

Outro ponto crítico da entrevista foi o uso excessivo de telas por crianças cada vez menores. A popularização dos smartphones transformou o celular em recurso para acalmar, distrair e entreter — mas o cérebro infantil pode pagar um preço alto por isso.

Até os dois anos de idade, não é aconselhável exposição à tela. O problema maior é o vício. Quando vira substituto de interação e brincadeira, isso interfere na formação das conexões neurais”, explica.

Ela destaca que os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento motor e sensorial. A experiência concreta — tocar, pegar, experimentar — não pode ser substituída por estímulos digitais.

A criança precisa pegar o carrinho, sentir a roda, explorar o espaço. Não é só tocar com o dedo na tela. Quando ela deixa de vivenciar o mundo físico, pode haver prejuízo motor e cognitivo.”

O uso não é necessariamente vilão, mas precisa ser gerenciado.

Não é uma questão de ser positivo ou negativo. É uma questão de gestão. O excesso gera ansiedade, irritabilidade e até sintomas depressivos — e isso já está aparecendo na infância.”

Ela observa que transtornos como ansiedade e depressão, antes mais comuns em adultos, têm sido identificados cada vez mais cedo.

Hoje vemos bebês e crianças pequenas com níveis de estresse que antes não eram comuns nessa faixa etária. E não é só a criança: o adulto também está adoecido.”

Saúde mental como prioridade coletiva

Para Maria da Conceição Barbosa, o enfrentamento da crise na saúde mental infantil exige ação integrada entre família, escola e poder público. O primeiro passo, segundo ela, é reconhecer que o problema existe e precisa ser tratado com seriedade.

Precisamos mapear, identificar quantas crianças estão diagnosticadas e quantas ainda não estão. Sem dados, não há política pública eficaz.”

Ela reforça que o cérebro “pede ajuda” quando está sobrecarregado — e ignorar sinais precoces pode gerar consequências na adolescência e na vida adulta.

Chega um momento em que o cérebro vai pedir ajuda. E quando isso acontece, não é fraqueza. É um alerta.”

Entre diagnósticos tardios, ausência de políticas específicas e uso indiscriminado de tecnologia, a infância amazonense enfrenta desafios complexos. Para a especialista, investir em saúde mental desde cedo não é apenas uma medida clínica — é uma estratégia social.

Porque cuidar do desenvolvimento infantil, como ela resume, é decidir que futuro se quer construir.

 

 

Por Ismael Oliveira – Redação Jovem Pan News Manaus