A produção de borracha nativa na Amazônia alcançou mais de 160 toneladas na safra atual, consolidando um modelo de organização produtiva baseado na autonomia dos próprios seringueiros. O assunto foi abordado por Jhassem Siqueira, analista de sustentabilidade do Memorial Chico Mendes, em entrevista ao programa De Olho na Cidade, da Jovem Pan News Manaus, apresentado por Tatiana Sobreira e Jackson Nascimento.
Durante a entrevista, Jhassem Siqueira destacou que a atual organização da cadeia produtiva representa uma mudança estrutural no extrativismo da borracha.
“Hoje, esse processo pode ser chamado de uma verdadeira revolução. Não existe mais a figura do patrão. Os patrões agora são os próprios seringueiros, que se organizam em associações e cooperativas. Eles mesmos fazem o gerenciamento da produção e da comercialização, retirando completamente essa relação histórica de exploração.”
Ao detalhar a afirmação, o analista explicou que o modelo rompe com o sistema histórico de aviamento, no qual os trabalhadores ficavam subordinados a intermediários que controlavam preços, insumos e escoamento da produção. Agora, segundo ele, as associações assumem funções administrativas, financeiras e comerciais, garantindo maior transparência e autonomia nas decisões.
Siqueira ressaltou que essa reorganização fortalece a renda e a segurança territorial das comunidades.
“Esse modelo é fundamental para a sobrevivência de mais de 500 famílias, que hoje dependem diretamente da produção da borracha.”
Ele explicou que a sustentabilidade econômica está diretamente ligada à capacidade de gestão das organizações locais, que recebem apoio técnico para estruturar estatutos, regularizar documentação e implementar sistemas de rastreabilidade. Cada produtor passa a ter um código próprio impresso na borracha, medida que assegura controle de qualidade e credibilidade no mercado.
O acompanhamento às famílias é realizado pelo Memorial Chico Mendes em parceria com instituições como WWF, Fundação Michelin e a própria Michelin, responsável pela compra da produção. O suporte inclui capacitação em boas práticas produtivas, orientação sobre acesso a políticas públicas de subvenção e articulação com prefeituras para incentivo à cadeia extrativista.
A parceria comercial, que já dura quatro anos, tem como meta atingir 700 toneladas por safra, garantindo previsibilidade aos produtores. Atualmente, a produção ultrapassou 160 toneladas, mesmo diante de desafios climáticos como estiagens severas e cheias intensas, que impactaram a logística de escoamento.
Siqueira destacou que o modelo também reforça a lógica de manutenção da floresta em pé, já que o látex é extraído sem a derrubada das árvores. Ele pontuou que a floresta deve ser compreendida como um sistema socioambiental e econômico, capaz de gerar renda, organização social e proteção territorial.
Além da indústria de pneus, a borracha amazônica começa a ser utilizada em segmentos como o da moda, ampliando possibilidades de mercado. A meta, segundo o analista, é consolidar no mercado nacional um produto identificado como borracha sustentável da Amazônia.
A safra ocorre, em geral, entre agosto e fevereiro, variando conforme o regime dos rios. Com a consolidação dos números atuais, o ciclo produtivo caminha para o encerramento, enquanto as organizações já iniciam o planejamento da próxima temporada.
Por Erike Ortteip, da redação da Jovem Pan News Manaus







