Professora da Unicamp é presa por furto de material biológico e responde em liberdade

Polícia Federal encontrou amostras de vírus em laboratório da universidade; docente é investigada por três crimes

A Polícia Federal prendeu em flagrante, na última segunda-feira (23), a professora doutora Soledad Palameta Miller, suspeita de retirar amostras de vírus do Laboratório de Virologia do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas sem autorização. O material foi localizado em laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), onde a docente atuava.

A investigação começou em 13 de fevereiro, quando responsáveis pelo laboratório identificaram o desaparecimento das amostras e acionaram a PF. Após diligências, os agentes encontraram os itens dentro da própria universidade, o que levou à prisão da pesquisadora.

Amostras estavam em área de alto nível de biossegurança

Segundo o termo de audiência judicial, o material retirado estava armazenado em área com nível 3 de biossegurança (NB-3), utilizada para estudo de agentes infecciosos com potencial de causar doenças graves e transmissão por via aérea.

Esse tipo de laboratório exige protocolos rígidos de controle, acesso restrito e rastreabilidade das amostras. A retirada sem autorização pode comprometer o controle sanitário e a segurança biológica.

A Polícia Federal informou que o material foi recuperado e encaminhado ao Ministério da Agricultura e Pecuária para análise. O conteúdo segue sob sigilo, assim como detalhes mantidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária e pela universidade.

Como funcionava a atuação da investigada

De acordo com a PF, as amostras estavam em laboratórios utilizados pela docente na FEA. A hipótese investigada é de retirada do material do Instituto de Biologia sem registro formal e transporte interno irregular.

A defesa sustenta que não houve furto e afirma que a professora utilizava o laboratório de origem por falta de estrutura própria para conduzir pesquisas.

Entenda a cronologia do caso

  • 13 de fevereiro: desaparecimento de amostras do Instituto de Biologia
  • Fevereiro a março: investigação da Polícia Federal
  • 23 de março: material é localizado na FEA; laboratórios são interditados e ocorre a prisão
  • 24 de março: Justiça concede liberdade provisória
Interdição e impacto na universidade

Durante a operação, todos os laboratórios da FEA foram interditados para cumprimento de mandados de busca e apreensão. A liberação ocorreu no mesmo dia, após a conclusão das perícias.

A reitoria da Universidade Estadual de Campinas informou que comunicou o caso às autoridades e instaurou sindicância interna. As atividades acadêmicas foram mantidas.

Crimes apontados pela Justiça

A Justiça Federal apontou três possíveis crimes:

  • exposição da vida ou saúde de terceiros a perigo;
  • fraude processual;
  • transporte irregular de organismo geneticamente modificado (OGM), em desacordo com normas da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança.

As penas somadas podem incluir detenção, reclusão e multa.

Condições para responder em liberdade

Após audiência de custódia, a professora foi liberada e deverá cumprir medidas cautelares:

  • comparecimento mensal à Justiça;
  • pagamento de fiança de dois salários mínimos;
  • proibição de sair de Campinas por mais de cinco dias sem autorização;
  • proibição de deixar o país;
  • impedimento de acesso aos laboratórios investigados.
Perfil da pesquisadora

Segundo registros institucionais, Soledad Palameta Miller, de 36 anos, é natural da Argentina e atua em pesquisas sobre vírus transmitidos por alimentos e água, com foco em vigilância epidemiológica e desenvolvimento de diagnósticos.

Ela já trabalhou no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais e realizou pós-doutorado na própria Unicamp, com projetos ligados a vacinas e testes diagnósticos.

Contexto de biossegurança

O laboratório envolvido opera com níveis NB-2 e NB-3:

  • NB-2: agentes com risco moderado ao indivíduo e baixo à comunidade;
  • NB-3: agentes com potencial de causar doenças graves, com transmissão aérea e necessidade de contenção rigorosa.

O caso também ocorre enquanto está em construção, em Campinas, o primeiro laboratório NB-4 do país, nível máximo de biossegurança, com previsão de conclusão em 2027.

 

Com informações do G1*

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus