Muito antes da atual campanha por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil já havia protagonizado uma disputa semelhante na Liga das Nações, entidade criada após a Primeira Guerra Mundial e considerada antecessora da ONU.
Há 100 anos, o país buscava ocupar uma cadeira permanente no Conselho Executivo da Liga das Nações. A tentativa levou o governo do então presidente Artur Bernardes a adotar uma medida considerada ousada pela diplomacia brasileira: vetar a entrada da Alemanha como membro permanente do órgão.
O veto foi anunciado em 17 de março de 1926, durante uma assembleia extraordinária realizada em Genebra, na Suíça. Na época, o Brasil era membro temporário do Conselho Executivo e tinha poder de veto. A entrada da Alemanha na condição de integrante permanente reduziria as chances brasileiras de alcançar o mesmo posto.
A decisão contrariou interesses de potências como Grã-Bretanha e França, que defendiam a admissão alemã. O impasse paralisou as atividades da Liga das Nações por semanas e gerou repercussão internacional.
Criada em 1919, a Liga das Nações tinha como objetivo evitar novos conflitos armados após a Primeira Guerra Mundial. O Brasil foi um dos países fundadores da organização e ocupava cadeira temporária no Conselho Executivo desde a criação da entidade.
Com o isolamento diplomático após o veto, o Brasil decidiu deixar a Liga das Nações em 12 de junho de 1926. A medida foi tomada antes que o país pudesse ser retirado da cadeira temporária pelas potências. Até o encerramento da organização, em 1946, o Brasil não voltou a integrar a entidade.
Debate chegou ao Congresso
Documentos históricos do Arquivo do Senado mostram que a decisão brasileira gerou forte debate político no Congresso Nacional. Parte dos parlamentares criticava a condução da política externa pelo governo Artur Bernardes, enquanto outros defendiam que o Brasil tinha condições de ocupar um posto permanente no conselho.
Naquele período, o Conselho Executivo da Liga das Nações era formado por dez países: quatro membros permanentes e seis temporários. Grã-Bretanha, França, Itália e Japão ocupavam as cadeiras permanentes, por serem potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial.
O principal argumento brasileiro era que as Américas deveriam ter ao menos um representante permanente no Conselho Executivo. Os Estados Unidos, apesar de terem participado da idealização da Liga das Nações, não integraram a entidade porque o Congresso norte-americano não ratificou o tratado de criação da organização.
Liga das Nações antecedeu a ONU
A Liga das Nações perdeu força ao longo dos anos seguintes. A Alemanha deixou a organização em 1933, após a chegada do nazismo ao poder, e a Itália saiu em 1937. A entidade não conseguiu impedir a Segunda Guerra Mundial e acabou extinta em 1946, dando lugar à Organização das Nações Unidas.
O atual Conselho de Segurança da ONU funciona, com diferenças, como uma espécie de sucessor do antigo Conselho Executivo da Liga das Nações. Hoje, o órgão é formado por cinco membros permanentes com poder de veto — Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China — além de dez membros temporários.
Desde 2003, o Brasil defende uma reforma no Conselho de Segurança e busca uma cadeira permanente no órgão. A candidatura brasileira faz parte da estratégia diplomática do país para ampliar sua participação nas principais decisões internacionais.
Especialistas em relações internacionais avaliam que o pleito brasileiro é legítimo, mas enfrenta resistência das atuais potências, já que a entrada de novos membros permanentes alteraria o equilíbrio de poder dentro da ONU. O episódio de 1926 segue como um dos capítulos mais marcantes da diplomacia brasileira e mostra que a busca por maior espaço nas organizações internacionais acompanha o país há pelo menos um século.
Com Informações da Agência Senado
Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus






