Poucos jogos na história do futebol carregam tanto simbolismo quanto Argentina x Inglaterra pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1986. Disputada em 22 de junho daquele ano, no Estádio Azteca, a partida transformou Diego Armando Maradona em uma figura lendária para os argentinos e produziu dois dos lances mais famosos já vistos em um Mundial.
A rivalidade entre as seleções já existia havia décadas, mas ganhou contornos ainda mais intensos após a Guerra das Malvinas, em 1982, conflito que resultou na morte de 649 soldados argentinos. Embora jogadores e dirigentes procurassem separar esporte e política, o clima de revanche era evidente entre torcedores e na cobertura da época.
O episódio daria origem à expressão que atravessaria gerações: “la mano de Dios”. Entretanto, a autoria da frase continua cercada de dúvidas. Durante anos, Maradona negou ter utilizado a mão e sustentou diferentes versões sobre o lance. Segundo o jornalista argentino Andrés Burgo, autor do livro “O Jogo”, a famosa expressão pode ter surgido a partir de uma conversa informal entre o jogador e jornalistas após a partida.
De acordo com a obra, após sucessivas negativas do camisa 10, o editor argentino Néstor Ferrero comentou: “Então, terá sido a mão de Deus”. Maradona teria respondido apenas: “Terá sido”. Posteriormente, a frase acabou sendo reproduzida como uma afirmação e entrou definitivamente para a história.
Mas foi apenas três minutos depois que aconteceu o lance que muitos consideram o maior gol de todos os tempos. Recebendo a bola ainda no campo de defesa, Maradona percorreu 42 metros em cerca de dez segundos, aplicou dribles em cinco adversários e finalizou após superar também o goleiro inglês.
A jogada foi eternizada pela narração do uruguaio Victor Hugo Morales, que descreveu o lance com uma das transmissões mais famosas da história do esporte. O gol virou referência mundial de genialidade individual e segue sendo lembrado sempre que algum jogador consegue atravessar o campo superando vários marcadores.
Para Andrés Burgo, foi a combinação entre os dois lances que consolidou a imagem de Maradona como um personagem único no futebol.
— Esta partida deu tudo a Maradona. A maior picardia, o melhor gol. E contra o rival perfeito. Se fosse contra o Brasil, seria diferente, teria menos impacto. Contra a Inglaterra tinha uma questão muito além da esportiva. Tem a questão que transforma o Maradona num vingador da Guerra, numa espécie de militar de short — disse o jornalista.
A partida ainda reservou emoção até os minutos finais. Depois do gol de Lineker, a Inglaterra pressionou em busca do empate e esteve perto de levar o duelo para a prorrogação. Porém, o defensor Olarticoechea interceptou uma das últimas investidas inglesas, lance que anos depois passou a ser lembrado de forma bem-humorada pelos argentinos como a intervenção da “nuca de Deus”.
Impulsionada por Maradona, a Argentina avançou à semifinal, derrotou a Bélgica e, posteriormente, conquistou o título mundial diante da Alemanha. Ainda assim, para muitos torcedores, nenhum momento daquela campanha superou os inesquecíveis três minutos em que o camisa 10 marcou um gol com a mão, outro considerado o mais bonito da história das Copas e escreveu definitivamente seu nome na eternidade do futebol.
Por Victoria Medeiros, da Redação da Jovem Pan News Manaus
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