O El Niño pode ganhar intensidade no fim de 2026 e prolongar seus efeitos até 2027, com reflexos sobre o regime de chuvas, a vazante dos rios, a floresta e as temperaturas no Amazonas. A previsão da Organização Meteorológica Mundial (OMM), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), aumenta a atenção para a possibilidade de eventos climáticos extremos nos próximos meses.
O fenômeno tem origem no Oceano Pacífico, mas modifica a circulação atmosférica e pode interferir no clima amazônico. Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste na região equatorial do Pacífico e deslocam águas quentes para o oeste. Esse processo integra a Circulação de Walker, responsável por influenciar a formação de nuvens e a distribuição das chuvas.
Como o El Niño afeta a Amazônia
Durante o El Niño, os ventos alísios enfraquecem e as águas quentes avançam em direção às regiões central e leste do Pacífico. A mudança reorganiza a circulação atmosférica e pode dificultar a formação de nuvens sobre a Amazônia.
Segundo o meteorologista Kleiton Morais, mestre em Clima e Ambiente pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o fenômeno modifica o movimento do ar na região.
“No El Niño, os alísios em vez de favorecer o movimento ascendente do ar, passam a favorecer a subsidência sobre a região”, explica.
Esse movimento pode reduzir a umidade em determinados níveis da atmosfera, dificultar a formação de nuvens e favorecer períodos com menos chuva. Os efeitos, no entanto, não ocorrem da mesma forma em toda a Amazônia e dependem da interação com outros fatores atmosféricos e oceânicos.
Vazante dos rios entra no monitoramento
As mudanças atmosféricas não provocam uma resposta imediata dos rios. Existe uma diferença de tempo entre a alteração das chuvas e seus efeitos no sistema hidrológico. Por isso, além das cotas, especialistas acompanham a velocidade com que os rios estão descendo.
Dados do boletim do Laboratório de Clima e Ambiente da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), referentes a agosto de 2026, indicavam uma descida mais rápida do que a média histórica em diferentes pontos da bacia.
Em Tabatinga, no rio Solimões, a redução chegou a aproximadamente 10 centímetros por dia no período analisado. Em Manaus, o rio Negro também apresentava ritmo de descida acima do histórico.
“O ritmo atual já é um sinal de alerta, mesmo que os níveis absolutos ainda não configurem seca extrema”, afirma Kleiton.
O comportamento não é uniforme. Pontos do Alto Rio Negro e do rio Branco apresentavam condições mais críticas, enquanto trechos do rio Madeira registravam níveis acima do normal.
Para comunidades ribeirinhas, uma vazante mais acentuada pode afetar o deslocamento e o acesso a alimentos, medicamentos e outros produtos, principalmente em localidades onde os rios são a principal via de transporte.
Calor e seca aumentam pressão sobre a floresta
A redução prolongada das chuvas, associada às temperaturas elevadas, também pode provocar estresse hídrico na vegetação. Árvores podem perder folhas, reduzir o crescimento e, em situações mais severas, morrer.
O engenheiro florestal Igor Dias explica que o risco aumenta quando o material vegetal seco se acumula no solo e passa a funcionar como combustível para incêndios.
“Quando a falta de chuva se soma a temperaturas altas por muito tempo, a floresta entra num verdadeiro modo de sobrevivência”, afirma.
Segundo o engenheiro, a floresta amazônica tem menor adaptação ao fogo do que outras formações vegetais.
“É esse combustível acumulado que transforma trechos de mata em pavio e a Amazônia não é feita para conviver com o fogo. Por isso, um incêndio na região costuma matar muito mais do que numa vegetação de cerrado”, diz.
Entre as possíveis consequências estão perda de árvores, danos à biodiversidade e degradação de áreas, que podem ficar mais suscetíveis a novos incêndios.
El Niño também pode ampliar calor em Manaus
Nas cidades, temperaturas elevadas podem se somar aos efeitos do concreto, do asfalto e da redução da cobertura vegetal. Em Manaus, essa combinação contribui para a formação de ilhas de calor.
“Parte da explicação está no céu, mas boa parte está no chão, onde faltam árvores e sobram concreto e asfalto”, afirma Igor.
As árvores contribuem para reduzir a temperatura por meio da sombra e do resfriamento do ambiente. Entre as medidas apontadas pelo engenheiro estão o plantio de árvores de copa em bairros com temperaturas mais elevadas, preservação da vegetação existente, criação de corredores verdes e ampliação das áreas permeáveis em novas construções.
“A saída começa por decisões que precisam sair do papel desde já: plantar árvores de copa nos bairros mais quentes, proteger o verde que ainda resta, criar corredores de vegetação e exigir mais áreas permeáveis nas novas construções”, afirma.
Cenário aumenta demanda por monitoramento ambiental
O avanço do El Niño também coloca no centro do debate a capacidade do poder público de acompanhar rios, condições atmosféricas, áreas vulneráveis e focos de queimadas, além de atuar no licenciamento, fiscalização e resposta a emergências ambientais.
Nesse contexto, a Comissão de Aprovados dos concursos da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) defende a convocação dos candidatos selecionados nos concursos homologados em junho de 2026.
A Sema ofereceu 159 vagas imediatas e 318 para cadastro de reserva. No Ipaam, foram abertas 140 vagas imediatas e 195 para cadastro de reserva.
Para integrantes da comissão, o possível prolongamento do El Niño até 2027 aumenta a necessidade de profissionais especializados nos órgãos ambientais.
“De nada adianta planejar se não há quem execute”, afirma Igor.
O engenheiro acrescenta que a necessidade de atuação pode ultrapassar a atual temporada de estiagem. “Com a perspectiva de um El Niño que se estende até 2027, o Estado vai precisar de gente em campo por muito mais tempo do que uma temporada”, diz.
Kleiton também aponta a necessidade de acompanhamento das diferentes sub-bacias amazônicas.
“A dinâmica das sub-bacias está mudando rápido e de forma não uniforme. Por isso, a capacidade de interpretar os dados e identificar rapidamente mudanças no comportamento dos rios é fundamental para orientar a atuação do poder público”, explica.
O El Niño, isoladamente, não determina como será o clima no Amazonas. A intensidade dos impactos depende da combinação com outros fenômenos oceânicos e atmosféricos e pode variar entre as regiões. O acompanhamento das chuvas, temperaturas e rios ao longo dos próximos meses será determinante para avaliar os efeitos do fenômeno no estado.
Com informações da Semcom
Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus





