Campeão dos Jogos Sul-Americanos Santa Fé 2026 ao lado de Arthur Lanci, o jogador de vôlei de praia Evandro se pronunciou sobre os ataques racistas que sofreu durante a competição realizada na Argentina. O atleta de 36 anos afirmou que espera o avanço das investigações e a responsabilização dos envolvidos.
Os ataques aconteceram antes da semifinal contra os argentinos Nicolás e Tomás Capogrosso. Na ocasião, uma entrevista concedida por Evandro e publicada nas redes sociais por um veículo de comunicação local recebeu diversos comentários de cunho racista. A publicação acabou sendo retirada posteriormente.
Dentro de quadra, Evandro e Arthur venceram os argentinos de virada, por 2 sets a 1, com parciais de 14/21, 21/16 e 17/15, garantindo a classificação para a decisão.
COB ENCAMINHOU DENÚNCIA
De acordo com o Comitê Olímpico do Brasil (COB), a delegação brasileira havia alertado o delegado das partidas sobre a possibilidade de manifestações racistas. A instituição também encaminhou uma profissional da área de Esportes Seguros para acompanhar a situação e tomar as providências necessárias.
O COB informou ainda que levou o caso à Fiscalia, órgão do Ministério Público Fiscal responsável pela apuração de ocorrências desse tipo na Argentina.
Em nota, o comitê afirmou:
“Não há lugar para manifestações racistas, discriminatórias ou de qualquer natureza que atentem contra a dignidade de atletas e de qualquer pessoa envolvida no Movimento Olímpico. (…) O COB manifesta sua solidariedade a Evandro e reforça que racismo não é opinião. É crime e deve ser enfrentado”
A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) também declarou que acompanha o caso em conjunto com o COB e busca a identificação e responsabilização dos autores.
EVANDRO COBRA PUNIÇÃO
Ao se manifestar sobre o episódio, o atleta afirmou que não considera o racismo uma situação que possa ser encarada como parte da competição e disse que pretende acompanhar a investigação.
“Existe algo que não pode ser tratado como parte do jogo. Antes da semifinal, fui alvo de ataques racistas nas redes sociais. E, por mais que situações como essa infelizmente não sejam novidade, eu me recuso a aceitar que alguém tenha que se acostumar com o racismo. (…) Agora, espero que a investigação avance, que os responsáveis sejam identificados e que existam consequências. Vou acompanhar esse caso até o fim. Não somente por mim. Por todos os atletas pretos que entram em quadra, em campo, na pista ou em qualquer espaço carregando o direito de serem respeitados. E também pela próxima geração, que não deveria crescer aprendendo que precisa suportar aquilo que nunca deveria acontecer. Racismo não é provocação. Racismo não é opinião. Racismo é crime. E não pode ficar impune”
Evandro também agradeceu ao COB e à CBV pelo suporte prestado durante o caso.
FAMÍLIA TAMBÉM REAGIU
A esposa do atleta, Ana Gomes, publicou um vídeo nas redes sociais no dia seguinte aos ataques. Ela relatou ter recebido registros dos comentários direcionados ao jogador e criticou a falta de responsabilização em situações de racismo.
Segundo Ana, as mensagens continham xingamentos e emojis de cunho racista.
“Quando comecei a ver aquilo, me doeu tanto. Me doeu na alma. Eu estava no meio da faculdade quando recebi os prints e os posts. Eu simplesmente fui embora porque não aguentei ver aquilo. Eu liguei para ele. Ele estava bem. Sabe por que ele estava bem? Porque ele está acostumado, porque isso não tem costume. Isso é crime. Não existe estar acostumado. (…) Ninguém é definido pela cor da pele. Ninguém pode ser melhor ou pior por ser preto ou por ser branco”
OURO NOS JOGOS SUL-AMERICANOS
Apesar do episódio, Evandro e Arthur Lanci conquistaram a medalha de ouro na 13ª edição dos Jogos Sul-Americanos. Na final, a dupla brasileira derrotou os venezuelanos Delgado e Vargas por 2 sets a 0, com parciais de 21/15 e 21/17.
Evandro soma três participações em Jogos Olímpicos e foi campeão mundial de vôlei de praia em 2017.
No início de setembro, a dupla também havia conquistado o vice-campeonato do Campeonato Sul-Americano. A competição garantiu ao Brasil uma vaga nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, e o título ficou com os brasileiros André e Renato.
ÍNTEGRA DO POSICIONAMENTO DE EVANDRO
Demorei alguns dias para me posicionar sobre tudo o que aconteceu durante os Jogos Sul-Americanos Santa Fé 2026.
Antes de qualuqer coisa, quero dizer que estou feliz e orgulhoso pela medalha de ouro que conquistamos. Eu e o Arthur entramos nessa competição com um objetivo, representamos o Brasil até o último ponto e voltamos para casa com esse objetivo cumprido.
Mas existe algo que não pode ser tratado como parte do jogo.
Antes da semifinal, fui alvo de ataques racistas nas redes sociais. E, por mais que situações como essa infelizmente não sejam novidade, eu me recuso a aceitar que alguém tenha que se acostumar com o racismo.
O Comitê Olímpico do Brasil, por meio da área de Esporte Seguro, encaminhou formalmente o caso às autoridades competentes na Argentina. A CBV está acompanhando os desdobramentos, e manifestações de repúdio e solidariedade também vieram dos Ministérios da Igualdade Racial e do Esporte.
Agradeço a todas as instituições e a cada pessoa que se posicionou e demonstrou apoio a mim e à minha família.
Agora, espero que a investigação avance, que os responsáveis sejam identificados e que existam consequências.
Vou acompanhar esse caso até o fim. Não somente por mim. Por todos os atletas pretos que entram em quadra, em campo, na pista ou em qualquer espaço carregando o direito de serem respeitados. E também pela próxima geração, que não deveria crescer aprendendo que precisa suportar aquilo que nunca deveria acontecer.
Racismo não é provocação.
Racismo não é opinião.
Racismo é crime.
E não pode ficar impune.
Por Victoria Medeiros, da Redação da Jovem Pan News Manaus
Foto: Gaspar Nóbrega /COB






