Escritor amazonense retorna a Manaus com romance inspirado em Alzheimer e memórias do interior

Natural de Coari e criado em Maraã, Wendril Kalloan vive no Rio de Janeiro e retorna ao Amazonas para apresentar livro que aborda a relação entre mãe e filho diante do envelhecimento e da perda de memória

As memórias do interior do Amazonas, a distância entre familiares e os efeitos do Alzheimer sobre as relações afetivas estão no centro do primeiro romance do escritor e roteirista amazonense Wendril Kalloan. Natural de Coari e criado em Maraã, o autor retorna a Manaus para uma temporada de divulgação de O Correr das Águas, o Passar dos Anos, lançado em setembro de 2026.

Radicado no Rio de Janeiro, Wendril construiu nos últimos anos uma trajetória que transita entre literatura e audiovisual. O novo livro, publicado de forma independente, recupera elementos de sua relação com o interior amazonense para contar a história de Miguel, jovem que deixa sua comunidade para estudar em Manaus, enquanto sua mãe, Dona Cici, permanece no lugar onde construiu sua vida.

Com o passar dos anos, a distância entre os dois ganha outra dimensão quando Dona Cici começa a perder progressivamente suas memórias. A partir dessa relação, o romance aborda envelhecimento, ausência, memória e os vínculos familiares diante das transformações provocadas pelo Alzheimer.

História nasce das memórias do interior do Amazonas

A relação de Wendril com a narrativa começou ainda na infância, entre as histórias ouvidas durante viagens pelos rios da região e o contato cotidiano com novelas brasileiras.

O avô materno do escritor, Cícero Lopes, navegava pelos rios Japurá, Copéa e Solimões comercializando mercadorias. Segundo Wendril, as viagens permitiram contato com diferentes pessoas e histórias que permaneceram como referências para sua produção.

“Meu avô materno, Cícero Lopes, navegava os rios Japurá, Copéa e Solimões comercializando mercadorias. Naquelas viagens, conheci pessoas e ouvi histórias que ficaram gravadas em mim. Ao mesmo tempo, assistir a novelas brasileiras com a minha mãe e minhas avós me fez perceber que a dramaturgia era o caminho ideal para transformar essas vivências em ficção”, relembra.

Ainda criança, ele começou a escrever histórias em folhas de papel disponíveis em casa, em um ambiente familiar no qual a educação fazia parte da rotina.

Da Amazônia para laboratórios do audiovisual nacional

A carreira profissional levou Wendril para o Rio de Janeiro, onde passou a participar de iniciativas voltadas à formação e ao desenvolvimento de projetos para literatura e audiovisual.

Em 2024, participou do Laboratório de Ficção da Globo, realizado em parceria com a Festa Literária das Periferias (FLUP). No ano seguinte, conquistou o primeiro lugar com o projeto de série Afogados na 1ª Feira de Negócios do Audiovisual da Amazônia Criativa, em Macapá.

Em 2026, passou a integrar a sétima edição do Vitrine Lab, programa de formação em distribuição audiovisual da Vitrine Filmes.

Romance premiado também aborda conflitos amazônicos

Entre os projetos desenvolvidos pelo escritor está Afogados, narrativa que acompanha Analua, uma professora ribeirinha envolvida em conflitos com uma poderosa família ligada ao garimpo.

Ambientada em uma cidade fictícia próxima ao rio Japurá, a história combina drama familiar, suspense, disputa de poder e elementos das crenças amazônicas. O projeto literário também ganhou uma versão para o audiovisual e foi premiado em 2025 na Feira de Negócios do Audiovisual da Amazônia Criativa.

O manuscrito do romance está em avaliação por uma editora nacional, com previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2027.

Outro projeto desenvolvido por Wendril é Salve Rainha, série que reúne referências ao Círio de Nazaré e à música brega. A produção foi apresentada em agosto de 2026 durante o Conexões Gramado Film Market, no Rio Grande do Sul, e despertou o interesse da Boutique Filmes, que solicitou materiais para avaliação.

Escritor busca ampliar representação da Amazônia

A experiência fora do Amazonas não afastou o escritor das referências construídas no estado. Pelo contrário, o território amazônico continua presente nos personagens, conflitos e ambientes de seus projetos.

Para Wendril, a produção literária e audiovisual pode apresentar personagens amazônidas a partir de experiências cotidianas, sem restringi-los às imagens tradicionalmente associadas à região.

“Procuro apresentar personagens amazônidas em sua plenitude, com conflitos, sonhos, afetos e contradições, mostrando que as narrativas do interior do Amazonas dialogam com qualquer público no Brasil. Entre as memórias de Maraã e os novos projetos, sigo movido pelo orgulho das minhas origens e pelo desejo contínuo de criar”, afirma.

O retorno a Manaus ocorre justamente durante a circulação de seu primeiro romance, uma obra que parte de uma experiência regional para tratar de temas presentes na vida de famílias de diferentes partes do país, como envelhecimento, distância entre parentes e perda progressiva da memória.

Livro está disponível em formato físico e digital

O Correr das Águas, o Passar dos Anos foi publicado de forma independente e está disponível em formato digital e impresso.

O e-book pode ser encontrado na Amazon, enquanto a versão física é comercializada pela Uiclap. Informações sobre a obra e os canais de acesso também estão disponíveis no perfil do escritor no Instagram, @wendril_kalloan.