Nos últimos dias, um vídeo e fotos, amplamente compartilhados nas redes sociais, mostraram uma tarântula-golias (Theraphosa blondi) dominada por um fungo parasita na floresta amazônica, dando-lhe uma aparência que muitos apelidaram de “zumbi”. As imagens registram o crescimento externo do fungo no corpo do animal após a morte, uma manifestação natural de fungos entomopatogênicos semelhantes ao gênero Cordyceps, conhecidos por parasitar insetos e artrópodes em florestas tropicais. Esses fungos não representam risco para humanos, mas são fascinantes exemplos da complexidade dos ciclos biológicos na floresta.
Esse tipo de fenômeno, por mais curioso que possa parecer à primeira vista, faz parte de um universo de pesquisas que muitas vezes passa despercebido, mas que tem enorme significado científico e ecológico. E no centro desse esforço pelo conhecimento da biodiversidade amazônica está o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), com sede em Manaus e reconhecido como uma das principais instituições brasileiras voltadas ao estudo dos ecossistemas tropicais.
O INPA abriga atualmente dezenas de grupos de pesquisa que atuam em diferentes frentes da ciência amazônica, incluindo a Biologia e Ecologia de Insetos da Amazônia, estudos sobre micobactérias e fungos e inúmeras outras linhas dedicadas à biodiversidade, dinâmica ambiental e interações ecológicas entre espécies de pequeno porte, como insetos, aracnídeos e outros invertebrados.
Esses trabalhos não se limitam a curiosidades isoladas. Por exemplo, expedições científicas coordenadas pelo INPA, como nas áreas da Reserva ZF2 a cerca de 80 km de Manaus, já coletaram mais de 1.400 amostras de insetos em apenas alguns dias de campo, revelando a enorme diversidade ainda não descrita da fauna amazônica, desde o solo até o dossel das árvores. Outro estudo documentou a presença de milhares de invertebrados aquáticos em igarapés da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, identificando mais de 11 mil indivíduos espalhados por diferentes ordens taxonômicas, muitos dos quais são essenciais para os ciclos ecológicos da floresta.
Além disso, o INPA participa de pesquisas amplas incluindo projetos que investigam como plantas, animais e microrganismos respondem a cenários futuros de temperatura e concentração de dióxido de carbono na atmosfera.
E quanto mais exploramos o microcosmo amazônico, seja estudando o ciclo de vida de um fungo, seja inventariando a diversidade de insetos ou analisando o papel de pequenos animais na cadeia alimentar, mais fica claro que essa floresta é um patrimônio científico, um laboratório natural único no mundo.
O registro de uma aranha “zumbi” não é apenas um momento curioso: é um lembrete de que o interessante e o essencial andam lado a lado na ciência amazônica e que instituições como o INPA são fundamentais para que esse conhecimento siga sendo produzido e compartilhado. E detalhe: a Amazônia tem muito mais para contribuir com o planeta do que nós imaginamos e sabemos.
Por Tatiana Sobreira, coluna Soul do Norte






