Dois Brasis, um futuro possível: quando os horizontes do Norte e do Sudeste se encontram

Coluna Soul do Norte, por Tatiana Sobreira.

Sou da região Norte do Brasil, do município de Codajás, estado do Amazonas.
E, com todas as dificuldades e desafios enfrentados em minha região, hoje, sem dúvida, foi mais um dia diferente na minha profissão.

Quem me acompanha, seja nas minhas redes sociais ou no dia a dia, dividindo o mesmo teto e trabalho no jornalismo e nas artes,  conhece uma frase que repito com frequência: sou a favor da amizade. Sou a favor do contato, do emaranhar-se, de gente que é gente, de relações humanas verdadeiras. Mesmo com divergências ou desentendimentos, acredito profundamente no processo da construção, nas impressões que causamos e nas que recebemos.

Hoje estou no Espírito Santo.
Que nome forte: Espírito Santo.

Vim a trabalho e encontrei aqui um outro Brasil, muito diferente do meu Norte brasileiro. Um estado onde políticas públicas funcionam com mais regularidade, onde cidades evoluem e onde, para além da pauta ideológica, percebe-se o trabalho acontecendo na prática.

Isso não significa que o Norte não tenha potencial. Muito pelo contrário.

O Amazonas é uma terra de conhecimento, de pesquisa e de gente preparada e trabalhadora. O que muitas vezes nos falta não é inteligência ou capacidade, é continuidade, planejamento, decisão política e empresas que poduzam a partir das nossas inúmeras matérias-primas.

Temos instituições que produzem ciência de nível internacional.

O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), por exemplo, é uma das instituições que mais produzem estudos científicos sobre a Amazônia no mundo. Somente em 2023 foram 388 trabalhos científicos publicados e 92 novas espécies descritas, além da formação de mestres e doutores que estudam desde biodiversidade até mudanças climáticas, bioeconomia e agricultura sustentável.

Outro exemplo é o Museu Paraense Emílio Goeldi, uma das instituições científicas mais antigas da região amazônica e referência internacional em pesquisas sobre biodiversidade, arqueologia e culturas tradicionais da floresta.

também o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), criado justamente para transformar biodiversidade em inovação tecnológica e produtos de valor agregado. Somam-se a isso universidades públicas da região Norte, como a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que formam pesquisadores, engenheiros, médicos e especialistas que conhecem profundamente a realidade amazônica.

Sem falar nas cooperativas locais, nos povos indígenas e nas comunidades ribeirinhas que, ao longo de séculos, desenvolveram conhecimentos sobre manejo da floresta, alimentação, fitoterapia e sustentabilidade, saberes que hoje inspiram pesquisas científicas e soluções ambientais discutidas no mundo inteiro. E a partir dai, qual o motivo para não unir tecnologia e inovação aos saberes milenares?

A Amazônia produz conhecimento.
Produz ciência.
Produz soluções que ajudam reproduzir e replicar Amazônia na Amazônia!

O que falta, muitas vezes, é transformar esse conhecimento em políticas públicas consistentes, programas duradouros e projetos de desenvolvimento real.

A transformação da floresta em commodities, com a expansão de atividades como pecuária, soja, mineração de ouro e exploração de madeira, ainda é um dos modelos mais presentes na Amazônia. Esse tipo de exploração gera riqueza concentrada e deixa para trás impactos ambientais difíceis de reparar. Cada vez mais pesquisadores e instituições vêm defendendo outro caminho: uma economia moderna, capaz de gerar renda sem depender dessas práticas somente. Uma economia que valorize o conhecimento tradicional da floresta aliado à tecnologia de ponta e que transforme a biodiversidade amazônica em novos produtos.

Mas antes mesmo de pensar nessas novas matrizes econômicas, um dever de casa que precisa começar pelo básico.

Em muitas cidades da região ainda é visível o descaso com o saneamento básico, com a gestão do lixo e com o cuidado cotidiano com os espaços urbanos. Resíduos acabam nos rios e igarapés, se misturam às águas das chuvas, provocam alagamentos e, inevitavelmente, resultam no adoecimento das pessoas fisíco e mental. 

A produção industrial a partir de matérias-primas da própria Amazônia pode, sim, ser uma realidade. Mas para que isso aconteça de verdade, é preciso olhar para quem vive na floresta. O ribeirinho, o morador das comunidades mais distantes dos grandes centros urbanos, precisa fazer parte dessa equação. É ali que a floresta é conhecida de perto e onde podem surgir oportunidades de trabalho, geração de renda e desenvolvimento local.

Ao mesmo tempo, esse movimento também pode abrir espaço para que jovens formados nas universidades da região encontrem caminhos profissionais na própria Amazônia, conectando ciência, tecnologia e saber tradicional no mesmo território e criando oportunidades para quem deseja viver, trabalhar e construir futuro sem precisar deixar sua própria região sem precisar buscar novos horizontes.

Enquanto isso, aqui no Espírito Santo vejo outra realidade: investimento em infraestrutura, cidades organizadas e políticas de desenvolvimento regional mais conectadas com planejamento e continuidade administrativa. Sei que tem problemas para serem resolvidos e atendidos, mas a realidade aqui é outra e bem distante.

E então surge uma pergunta inevitável:

Por que dois horizontes tão diferentes dentro de um mesmo país?

O Brasil é um só.
Mas ainda parece viver em velocidades diferentes.

Não me canso de falar das belezas da minha Amazônia.
Da floresta, da cultura, da ciência e das pessoas.

Mas também não me canso de dizer que podemos ser mais.

Temos conhecimento científico.
Temos universidades.
Temos institutos de pesquisa.
Temos matéria-prima.
Temos povos que conhecem profundamente o território.

O que precisamos é transformar tudo isso em projeto de presente para termos um futuro descente e digno.

Porque nenhum lugar nasce pronto.
Nenhum canto é seco e estéril.

Ele é construído, alimentado, expandido e possível.

E talvez seja justamente nisso que os dois horizontes, o do Norte e o do Sudeste, ainda possam se encontrar.

Somos um momento.
Um povo.
Um Brasil.

Por Tatiana Sobreira, da redação da Jovem Pan News Manaus