O Canadá e a China anunciaram nesta sexta-feira (16), um acordo comercial inicial para reduzir tarifas sobre veículos elétricos e produtos ligados à canola. O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro canadense, Mark Carney, após reuniões em Pequim com autoridades chinesas, incluindo o presidente Xi Jinping. Segundo Carney, os dois países também se comprometeram a eliminar barreiras comerciais e ampliar a cooperação econômica.
Carney é o primeiro primeiro-ministro do Canadá a visitar a China desde 2017 e afirmou que a viagem busca reconstruir a relação com o segundo maior parceiro comercial do país, depois dos Estados Unidos, após meses de negociações diplomáticas.
Pelo acordo, o Canadá permitirá inicialmente a entrada de até 49 mil veículos elétricos chineses com tarifa de 6,1%, com base no princípio da nação mais favorecida. O primeiro-ministro não especificou o prazo da medida. Atualmente, vigora uma tarifa de 100% sobre esses veículos, imposta em 2024 pelo governo do então primeiro-ministro Justin Trudeau, em linha com penalidades adotadas pelos Estados Unidos. Em 2023, a China exportou 41.678 veículos elétricos para o Canadá.
“Este é um retorno aos níveis anteriores aos recentes atritos comerciais, mas sob um acordo que promete muito mais para os canadenses”, disse Carney a jornalistas em Pequim. Trudeau havia justificado a tarifa de 100% alegando vantagem competitiva indevida de fabricantes chineses beneficiados por subsídios estatais, o que ameaçaria a indústria canadense.
“Para que o Canadá construa seu próprio setor de veículos elétricos competitivo, precisaremos aprender com parceiros inovadores, acessar suas cadeias de suprimentos e aumentar a demanda local”, afirmou Carney.
Ele disse esperar que o acordo incentive investimentos chineses “consideráveis” no setor automotivo canadense, gere empregos e acelere a transição para um cenário de emissões líquidas zero. O primeiro-ministro também citou interesse em ampliar a parceria com a China em armazenamento e produção de energia limpa.
Na área agroalimentar, o acordo trata de tarifas impostas pela China em retaliação às medidas adotadas pelo governo Trudeau. Em março do ano passado, Pequim aplicou tarifas sobre mais de US$ 2,6 bilhões em produtos agrícolas e alimentícios canadenses, como óleo e farelo de canola, e em agosto estendeu a medida às sementes de canola. O impacto foi uma queda de 10,4% nas importações chinesas de produtos canadenses em 2025.
Segundo Carney, o Canadá espera que a China reduza as tarifas sobre sementes de canola até 1º de março para uma taxa combinada de cerca de 15%. “Essa mudança representa uma queda significativa em relação aos níveis tarifários combinados atuais de 84%”, disse, acrescentando que a China é um mercado de US$ 4 bilhões para as sementes de canola canadenses. O governo também espera que as tarifas antidiscriminatórias sobre farinha de canola, lagostas, caranguejos e ervilhas sejam removidas a partir de 1º de março, pelo menos até o fim do ano.
De acordo com Carney, os acordos devem destravar quase US$ 3 bilhões em encomendas de exportação para agricultores, pescadores e processadores canadenses.
Em declaração conjunta divulgada pela agência estatal chinesa Xinhua, Canadá e China afirmaram que vão retomar o diálogo econômico e financeiro de alto nível, impulsionar o comércio e os investimentos bilaterais e fortalecer a cooperação nos setores de agricultura, petróleo, gás e energia verde.
Carney disse que o Canadá pretende dobrar sua matriz energética nos próximos 15 anos e que existem oportunidades de parceria com a China, incluindo investimentos em energia eólica offshore. Ele afirmou ainda que o país está ampliando as exportações de gás natural liquefeito (GNL) para a Ásia e que pretende produzir 50 milhões de toneladas por ano, todas destinadas aos mercados asiáticos, até 2030.
Sobre o cenário internacional, Carney afirmou que a relação recente com a China se tornou “mais previsível”. “Em termos da forma como nosso relacionamento com a China evoluiu nos últimos meses, ele se tornou mais previsível, e vemos resultados disso”, disse, ao ser questionado se Pequim seria um parceiro mais previsível e confiável do que os Estados Unidos.
O primeiro-ministro também disse ter conversado com Xi sobre a Groenlândia. “Encontrei muita convergência de opiniões a esse respeito”, afirmou. Nos últimos dias, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a mencionar o território dinamarquês semiautônomo, enquanto países da Otan reagiram às declarações.
Analistas avaliam que a reaproximação entre Ottawa e Pequim ocorre em meio às tensões comerciais com Washington.
“Dadas as complexidades atuais nas relações comerciais do Canadá com os EUA, não é surpresa que o governo de Carney esteja interessado em melhorar as relações bilaterais de comércio e investimento com Pequim, que representa um mercado enorme para os agricultores canadenses”, disse Even Rogers Pay, da consultoria Trivium China, sediada em Pequim. Ele acrescentou: “Entretanto, é difícil para Washington criticar Carney por fechar um acordo comercial vantajoso quando o próprio Trump acabou de fazer o mesmo em outubro”.
Trump impôs tarifas sobre alguns produtos canadenses e chegou a sugerir que o Canadá poderia se tornar o 51º estado americano. A China, também afetada pelas tarifas dos EUA, busca ampliar parcerias com países do G7.
Para Sun Chenghao, pesquisador do Centro de Segurança e Estratégia Internacional da Universidade de Tsinghua, não se espera uma mudança estratégica profunda. “O Canadá é um aliado fundamental dos EUA e está profundamente integrado nas estruturas de segurança e inteligência americanas. Portanto, é muito improvável que haja um realinhamento estratégico que se afaste de Washington.”
Segundo ele, se Ottawa adotar uma política econômica mais pragmática em relação à China, Pequim poderá usar isso como argumento de que a estratégia de desvinculação liderada pelos EUA não é inevitável nem amplamente aceita.
Com informações do Reuters*
Por Haliandro Furtado — Redação da Jovem Pan News Manaus






