As cheias que atingem Moçambique desde o início de janeiro já afetaram pelo menos 642.122 pessoas e ampliaram o risco de surtos de doenças, segundo dados divulgados por agências das Nações Unidas e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Além dos impactos humanitários, o país enfrenta danos à infraestrutura, dificuldades no abastecimento e sobrecarga no sistema de saúde. Diante do cenário, o governo decretou estado de emergência nacional.
Em entrevista à ONU News, a chefe do programa de emergência da OMS em Moçambique, Sinésia Sitão, afirmou que a situação sanitária tende a se agravar nos próximos dias em razão das inundações e das condições em que vivem as pessoas deslocadas.
“Espera-se que nos próximos dias a situação de saúde dessas pessoas possa agravar-se como consequência dessas inundações. Nós apelamos ao mundo que apoie Moçambique a combater as doenças diarreicas, a malária e as infecções respiratórias agudas.”
Segundo a OMS, a prioridade é reforçar o apoio logístico e a capacitação das equipes de saúde para garantir a chegada de medicamentos, principalmente na província de Gaza, a mais atingida pelas cheias. A organização também alerta que a concentração de pessoas em abrigos, a falta de acesso à água potável e as condições precárias de higiene aumentam o risco de disseminação de doenças. Outro ponto de atenção é a saúde mental da população e dos próprios profissionais de saúde que atuam nas áreas afetadas.
“As pessoas estão afetadas e precisam de apoio psicossocial para conseguirem enfrentar esse período de emergência. Isso vale também para os próprios profissionais de saúde, que fazem parte da população e também são afetados”, afirmou Sinésia Sitão.
O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (Ingd) informou que cerca de 4.000 pessoas ainda precisam ser resgatadas nos distritos de Magude, Manhiça, Chókwé e Guijá, nas províncias de Maputo e Gaza. Segundo o órgão, essas populações estão isoladas, sem condições de preparar alimentos e sem acesso à água potável, o que torna necessária a retirada imediata das áreas alagadas.
Dados provisórios do Ingd indicam que, desde o início da época chuvosa, 242 unidades de saúde foram afetadas, ao menos 144 pessoas ficaram feridas e 91 centros de acolhimento abrigam cerca de 96 mil desalojados. As cheias atingiram o equivalente a 139.708 famílias, com registro de 2.879 casas parcialmente destruídas, 757 totalmente destruídas e 71.560 inundadas.
Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), mais de meio milhão de pessoas foram impactadas pelas inundações, provocadas pelas chuvas intensas e pela liberação de água de barragens para evitar rompimentos. A chefe do escritório do OCHA em Moçambique, Paola Emerson, informou que os números continuam aumentando à medida que as inundações se espalham e as barragens seguem liberando grandes volumes de água.
Ela relatou que cerca de 5.000 quilômetros de estradas foram danificados em nove províncias, incluindo a principal via que liga Maputo ao restante do país, atualmente inacessível. Segundo o OCHA, em alguns casos, apenas uma barragem chegou a liberar até 10.000 metros cúbicos de água por segundo, o que explica a força das cheias e os danos à infraestrutura.
Com a elevação dos níveis dos rios, cidades como Xai-Xai, próxima ao rio Limpopo, foram inundadas e passaram por evacuações. De acordo com o OCHA, as autoridades emitiram alertas inclusive sobre riscos adicionais, como a presença de crocodilos em áreas urbanas que ficaram submersas.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) também alertou para o aumento do risco de doenças e desnutrição, principalmente entre crianças. O órgão informou que as inundações estão comprometendo o acesso à água potável, aos alimentos e aos serviços de saúde, o que agrava um quadro já delicado: antes mesmo das cheias, quatro em cada dez crianças em Moçambique já sofriam de desnutrição crônica. Segundo a agência, a combinação de doenças transmitidas pela água e desnutrição pode ser fatal e tende a se intensificar com a continuidade da crise.
Com informações da Unicef*
Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus






