Após um período marcado pela insegurança alimentar provocada pelos impactos do garimpo ilegal, a comunidade Sikamabiu, localizada no Baixo Mucajaí, na Terra Indígena Yanomami, iniciou uma nova etapa de reconstrução. Famílias do povo Ninam passaram a retomar práticas produtivas com a inauguração de uma Unidade Demonstrativa de Referência (UDR), entregue na última segunda-feira, 2, em ação articulada por órgãos do governo federal.
A unidade foi planejada para dialogar com os modos de vida Yanomami e reúne piscicultura, sistemas agroflorestais, banco de sementes tradicionais, viveiro de mudas, aviário comunitário e compostagem. O projeto também inclui formação técnica de indígenas em manejo aquícola, permitindo que a própria comunidade conduza a produção de alimentos e fortaleça a autonomia alimentar após a crise humanitária registrada nos últimos anos.
A iniciativa integra os projetos “Resgate e Preservação de Recursos Genéticos, Segurança e Soberania Alimentar”, executado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), e “Ensino, Pesquisa e Extensão em Piscicultura e Pesca Artesanal”, desenvolvido pelo Instituto Federal de Roraima (IFRR) com o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA).
A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) atua por meio da Força-Tarefa Yanomami e Ye’kwana na articulação institucional, apoio logístico e diálogo com as lideranças locais, além do acompanhamento das ações no território. Para a presidenta da Funai, Joenia Wapichana, garantir a produção de alimentos é parte central do processo de reconstrução.
“Segurança alimentar significa garantir que as comunidades tenham condições de produzir de forma contínua e sustentável. Esses projetos precisam seguir e ser ampliados”, afirmou.
Ela também ressaltou que a continuidade das ações depende da proteção do território.
“Combater o garimpo ilegal é um dever permanente do Estado, porque ele afeta diretamente a saúde, a vida e a alimentação dos povos indígenas”, completou.
Liderança da comunidade, Luiza Xirixana destacou que o projeto responde a uma necessidade concreta.
“Com o garimpo, os peixes ficaram raros e ruins para consumo. A gente começou a se perguntar onde buscar alimento e esse projeto traz uma resposta para isso”, relatou. Segundo ela, a iniciativa também fortalece a roça tradicional e o aprendizado das crianças sobre produção de alimentos.
Para o presidente da associação Texoli, Gerson Xirixana, o avanço é resultado de um esforço coletivo.
“No começo, nem todos acreditavam, mas hoje as pessoas estão participando. A comunidade começa a ver que é possível produzir e garantir alimento para as famílias”, disse.
De acordo com a chefe-geral da Embrapa, Yanameyka Evangelista de Lima Primo, Sikamabiú é a primeira comunidade a receber a iniciativa, que será ampliada para outros territórios Yanomami.
“Aqui implantamos estruturas como tanques escavados, sistemas agroflorestais, bancos de sementes e plantios que fazem parte da base alimentar indígena, como banana, mandioca e macaxeira”, afirmou.
A piscicultura é uma das frentes centrais da unidade, com dez tanques elevados, um tanque escavado de grande porte, dois açudes integrados e a entrega de 8 mil alevinos. A previsão é de produção de até uma tonelada de peixes em 2026, garantindo proteína para cerca de 400 indígenas. A água utilizada nos tanques também é reaproveitada na fertirrigação das áreas agrícolas. Para o ministro do MDS, Wellington Dias, a iniciativa fortalece a autonomia das comunidades.
“O governo quer que cada comunidade produza o seu alimento e que sobre para vender, garantindo renda e autonomia”, afirmou, citando o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
O projeto também envolve formação técnica contínua. O IFRR atua na capacitação em piscicultura e manejo sustentável. Para o diretor do Campus Amajari, Rodrigo Barros, a educação é parte central do processo.
“A formação garante que a comunidade tenha condições de conduzir a produção e manter as atividades no território”, disse.
A inauguração contou com a presença de mais de 200 indígenas Yanomami, além de representantes da Funai, do Ministério Público Federal (MPF), de ministérios federais, do governo de Roraima, de organizações indígenas e de instituições de ensino e pesquisa.
Com Informações da Fundação Nacional dos Povos Indígenas
Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus






