Dinheiro de apostas ilegais foi rastreado até fundos ligados à operação Carbono Oculto

Monitoramento feito por empresas do setor identificou fluxo financeiro para fintechs associadas a esquema investigado pelo Ministério Público
Foto: Rubens Cavallari-28.ago.25/Folhapress

 

Parte dos recursos movimentados por sites ilegais de apostas no Brasil foi rastreada até fundos de investimento ligados à operação Carbono Oculto, que apura fraudes fiscais, sonegação e lavagem de dinheiro. As informações surgem em meio à proposta de delação premiada de Beto Louco ao Ministério Público de São Paulo.

Segundo relatos de executivos do setor de apostas, empresas legalizadas realizaram depósitos em plataformas ilegais para mapear o fluxo financeiro. A iniciativa identificou dez fintechs que recebiam os valores transferidos por usuários dessas plataformas.

Os dados foram apresentados ao governo federal, que indicou que faria análise do material. Antes do avanço das apurações, a operação Carbono Oculto foi deflagrada, em 28 de agosto.

De acordo com representantes do setor, três das fintechs identificadas no rastreamento constavam entre os alvos de mandados de busca e apreensão relacionados a fundos de investimento investigados na operação.

A Carbono Oculto tem como objetivo desmontar um esquema bilionário envolvendo fraudes fiscais, sonegação e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, com conexões com o crime organizado.

A proposta de colaboração de Beto Louco inclui a possibilidade de detalhar a participação de agentes públicos e magistrados no esquema investigado.

Mercado paralelo e lavagem de dinheiro

Empresas do setor estimam que o mercado ilegal de apostas concentra volume próximo ao das plataformas autorizadas. Segundo essas estimativas, cerca de 50% dos valores movimentados por sites ilegais seriam destinados a esquemas de lavagem de dinheiro.

A outra metade corresponde a fraudes contra usuários. Nesse modelo, os sites operam com endereços registrados fora do país e utilizam redes sociais para divulgação, incluindo participação de influenciadores.

Fiscalização e atuação do governo

Órgãos como a Agência Nacional de Telecomunicações e a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda atuam na identificação e retirada do ar de plataformas irregulares. Em 2025, mais de 25 mil sites foram derrubados.

Segundo representantes do setor, o bloqueio ocorre após a captação de recursos. Após a retirada do ar, os operadores criam novos domínios e retomam as atividades com nomes diferentes.

Quem é Beto Louco

O empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, é apontado como um dos principais investigados da operação Carbono Oculto. Ele está foragido e negocia um acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo, junto com Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo.

Segundo investigadores, ambos são suspeitos de participação em um esquema de infiltração do crime organizado na economia formal, com atuação no setor de combustíveis e no mercado financeiro.

As investigações indicam que o grupo é alvo de apurações por crimes como fraude fiscal, lavagem de dinheiro, estelionato e adulteração de combustíveis. A operação reúne órgãos como o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o Ministério Público de São Paulo, a Receita Federal e conta com apoio da Polícia Federal.

De acordo com as apurações, Mourad seria responsável pela estrutura operacional do esquema, com atuação em diferentes etapas da cadeia do setor de combustíveis. Já Beto Louco é apontado como responsável por fraudes contábeis e pela gestão financeira, incluindo a administração de fundos de investimento e empresas utilizadas para movimentação de recursos.

A eventual delação pode incluir informações sobre a participação de empresários, agentes públicos e políticos. As negociações seguem sob análise do Ministério Público.


Com informações da Folha de São Paulo*

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus