Ecos que não se perdem: quando falar é existir

Por Tatiana Sobreira

Às margens dos rios, seja debaixo da sombra generosa das árvores ou mergulhada nos rios, há vozes que nunca se calam. São vozes que carregam história, pertencimento e perpetuidade. Aqui nessa coluna é uma forma que encontrei para olhar mais de perto para o que somos e quem somos. Uma Amazônia que pulsa em nós não se mede pela extensão territorial, mas pela profundidade de tudo o que nos constitui, que está para além de nós mesmos.

É nesse território que resistente, existe resiliente e desafiador que encontramos as chaves de um presente que teima em apontar para um futuro que não renegue mais o passado, mas o traduza em ação concreta e atual.

Recentemente, uma conquista silenciosa, porém monumental, ecoou pelos corredores da cultura e da ciência. Eu estou falando dos dicionários multimídia para línguas indígenas, desenvolvidos pelo Museu Instituto Paraense de Odontologia (Museu Paraense Emílio Goeldi) e que receberam certificação nacional. Não são meros catálogos de palavras e traduções. São portais vivos, espaços onde cada som, cada inflexão, cada memória retida na língua original ganhou suporte digital, gráfico e sonoro. Eles garantem que o saber ancestral, que sobreviveu a séculos de exclusão e apagamento, tenha agora voz, audição e permanência no mundo contemporâneo. Acesse aqui https://dicionarios.museu-goeldi.br/

E isso não acontece isoladamente. No coração do Amazonas, iniciativas editoriais impactantes florescem. Livros escritos por e sobre povos tradicionais, publicados por editoras amazonenses, travam um diálogo firme com o presente. Eles narram cosmologias, rituais de cura, práticas agrícolas sustentáveis, calendários festivos, e, sobretudo, relatos de vida que resistem ao tempo.

Ainda mais simbólica é a ascensão de startups de idiomas desenvolvidas a partir de etnias indígenas do Amazonas, que ganharam prêmios nacionais e internacionais. Esse movimento, onde ancestralidade e tecnologia se encontram, representa mais do que inovação,  é afirmação de existência. É a tradução de séculos de tradição em ferramentas que ensinam crianças a reconhecer suas raízes, que permitem a um jovem urbano escutar um canto antigo e perceber que aquelas palavras continuam vivas, pulsando. O teclado de línguas indígenas – Linklado – ficou entre os 10 semifinalistas do 65º Prêmio Jabuti na categoria de ‘Fomento à Leitura’. O teclado foi desenvolvido em parceria com as pesquisadoras Noemia Ishikawa e Ana Carla Bruno do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) e os estudantes Samuel Minev Benzecry e Juliano Portela. Para saber mais o teclado acesse o site https://www.linklado.com/

E o que isso diz sobre nós?

Que a Amazônia é ancestral.

Uma cultura que não se fossiliza. Não se rende ao tempo. É memória que encontra novos corpos, novos olhares, não se curva antes as dificuldades e com a ciência se alia a novos dispositivos para continuar seu fluxo de vida.

O Norte é multifacetado plurilíngue, segundo estudiosos da cultura indígena no Brasil, a região Norte sempre foi um mosaico linguístico. No Pará, registram-se dezenas de etnias com línguas próprias. No Amazonas, essa diversidade chega a centenas de variantes linguísticas, com grupos como os Baniwa, Tukano, Yanomami, Dessana, e muitos outros. No conjunto da Amazônia Legal, somam-se tribos Tupi, Arawak, Karib e Pano, compondo um painel rico e desafiador de mais de 200 línguas e variantes catalogadas pelos pesquisadores, um patrimônio imaterial de valor incalculável.

Mas nenhum número, por mais impressionante que seja, traduz o que essas línguas significam. Um representatividade de uma linhagem dos primeiros habitantes da região, o modo de ver o mundo, sons, convivência, saberes ecológicos acumulados, cosmologias fecundas que ainda orientam práticas de vida em equilíbrio com a natureza e com o modo entre as etnias.

E é exatamente nisso que reside a importância do que está acontecendo agora. Não se trata apenas de preservar vocábulos. Trata-se de reconhecer que o Norte não é apenas um lugar continental no mapa, é um lugar no tempo. É saber que cada idioma, cada som singular, cada livro publicado, cada aplicativo premiado, é um ato para além da sobrevivência, é um ato de resistência, um gesto de amor pela existência coletiva do que sobrou do Brasil inicial.

Por isso, quando celebramos essas vitórias, os dicionários que ganham certificação, os livros que encontram leitores, os projetos tecnológicos que traduzem tradição. Estamos, na verdade, reconhecendo que a Amazônia nunca deixou de existir. Ela apenas nos convidou a olhar novamente, com respeito e responsabilidade, para as vozes que sempre estiveram aqui. A memória ainda será a nossa maior defensora nos monentos de incerteza. O conhecimento solidifica e recria nosos saberes e sentido de pertencimento. Quem não sabe o que é, não sabe para onde vai.

Vamos ouvir nossas vozes.

Porque a Amazônia, meus amigos, fala em plural, já passou da hora e nós  aprendermos a ouvir.

Fontes: Gov.br e Museu Emilio Goeldi

Imagens Internet e IA

Tatiana Sobreira, coluna Soul do Norte