Exclusiva: Empreendedora transforma dificuldade em negócio de sucesso e fortalece autoestima de mulheres negras no Amazonas

Marca criada com investimento de menos de R$ 700 cresce em Manaus, ganha espaço físico e passa a atender todo o Brasil com foco em identidade, cultura e valorização da mulher preta.

O empreendedorismo feminino negro ganha cada vez mais destaque como ferramenta de resistência, valorização cultural e geração de renda no Brasil. No Amazonas, exemplos de sucesso mostram como a iniciativa pode unir propósito, identidade e mercado. Entre essas trajetórias está a de Fernanda Fernandes, fundadora da Melanina AM, marca que celebra a cultura afro-brasileira por meio de produtos de beleza e acessórios voltados para mulheres negras.

Em entrevista exclusiva ao programa Minuto a Minuto, da Jovem Pan News Manaus, Fernanda contou como transformou dois anos de desemprego em um negócio consolidado, com espaço físico em Manaus, vendas online para todo o país e planos de expansão para vestuário inspirado em tecidos africanos. A empreendedora detalhou os desafios, aprendizados e a missão social por trás da marca, que vai além da comercialização de produtos e busca fortalecer a autoestima de suas clientes.

A trajetória começou em um momento de incerteza. Fernanda havia deixado o trabalho como operadora de caixa em 2016 e, sem conseguir recolocação no mercado, precisou reinventar sua realidade.

Eu tava num momento que eu não estava me encontrando emprego, né? Já faziam dois anos. Meu último emprego foi como caixa num restaurante e de lá eu não consegui mais me encaixar no mercado de trabalho”, relembra.

Empreender, no entanto, não surgiu apenas da necessidade financeira. Uma dor pessoal também foi determinante para o nascimento do negócio.

Eu como mulher negra, uma mulher vaidosa que gosto de me maquiar, de me cuidar, senti essa dificuldade aqui de encontrar esse tipo de produto, como turbante, como brincos com essa pegada da cultura negra”, conta.

Nascimento da Melanina AM

Foi em 2018 que a Melanina AM saiu do papel, com um investimento inicial simples, mas cheio de significado. Sem capital próprio, Fernanda contou com o apoio do então namorado.

Eu não tinha dinheiro nem para fazer o meu primeiro investimento. Ele me emprestou o cartão de crédito dele e aí eu fiz meu primeiro investimento com produtos de beleza e acessórios afros. Foi algo em torno de 600 a 700 reais”, afirma.

Desde o início, a marca já carregava o propósito que mantém até hoje: valorizar a cultura negra e fortalecer a autoestima de mulheres pretas por meio de produtos pensados para elas.

Eu percebi que não era só uma dor minha. Tinha outras mulheres também com a mesma dificuldade. Então por isso a Melanina nasceu”, destaca.

Crescimento e identidade

Inicialmente funcionando apenas como e-commerce em Manaus, a Melanina AM cresceu de forma gradual. Hoje, além das vendas online, a marca ocupa um espaço em uma loja colaborativa no centro histórico da capital e participa de eventos e feiras.

A curadoria dos produtos é um dos diferenciais do negócio, priorizando fornecedores e artesãos negros e itens que carregam identidade cultural.

Eu trabalho com marcas de pessoas negras, com artesãs que trabalham com a cultura negra. A gente também tem produtos autorais e traz itens da África, como os nossos leques”, explica.

Fernanda detalha que cada peça carrega um significado.

Por exemplo, um colar com búzio representa ancestralidade, proteção. Os tecidos africanos também têm história, têm técnicas próprias. Não é só estética, é identidade”, ressalta.

Empreendedorismo como escolha de vida

Durante esse período, Fernanda também iniciou e concluiu a graduação em pedagogia, mas decidiu não seguir na área.

Quando eu me formei, eu precisei escolher se eu ia pra educação ou pro empreendimento. E o empreendedorismo falou mais alto, era o que fazia mais sentido pra mim”, afirma.

Ela reforça que o aprendizado foi essencial para consolidar o negócio.

Eu comecei sem saber nada do que era empreender. Depois fui estudar, procurei cursos, apoio. O Sebrae foi e continua sendo um grande aliado nessa caminhada”, conta.

Expansão e novos horizontes

O planejamento ao longo dos últimos anos permitiu avanços importantes. Em 2026, a Melanina AM conquistou seu primeiro espaço físico fixo e ampliou a atuação para entregas nacionais.

Além disso, a marca já projeta novos passos.

Em breve a gente quer trabalhar com vestuário também, trazer roupas com tecidos africanos. É uma demanda das nossas clientes”, adianta.

Impacto além das vendas

Mais do que comercializar produtos, a Melanina AM atua como ferramenta de transformação social e representatividade.

Por muito tempo fizeram a gente acreditar que não éramos bonitas, que não tínhamos valor. Então quando eu vejo uma mulher falando que encontrou uma base perfeita ou que o cabelo ficou incrível, eu entendo que cheguei onde eu queria”, relata.

A empreendedora também destaca que o público da marca é diverso.

Eu arrisco dizer que 50% dos meus clientes são pessoas negras e 50% não negras. Tem muita gente que quer conhecer mais sobre a cultura negra, ser aliada”, afirma.

Desafios e resistência

Apesar dos avanços, Fernanda ainda aponta desafios especialmente ligados ao racismo estrutural.

Infelizmente eu ainda sinto alguns olhares, algumas situações. O racismo estrutural ainda está muito presente e machuca muito”, desabafa.

Mesmo assim, ela acredita no avanço e na importância de continuar ocupando espaços.

A gente já caminhou bastante, mas ainda não é o suficiente. Precisamos valorizar mais a nossa cultura e ter mais aliados nessa causa”, reforça.

Incentivo a outras mulheres

Ao final da entrevista, Fernanda deixa uma mensagem para outras mulheres que desejam empreender.

Primeiramente, estudem sobre empreendedorismo e procurem locais que possam te apoiar. Tem muita mulher potente aí que ainda vai aparecer muito. É possível sim”, afirma.

 

 

Por Ismael Oliveira – Redação Jovem Pan News Manaus