Em meio às campanhas de conscientização que ganham força ao longo do ano, o mês de fevereiro chama atenção para doenças crônicas que, apesar de ainda não terem cura, podem ser controladas com diagnóstico precoce e tratamento adequado. O chamado “Fevereiro Roxo e Laranja” mobiliza profissionais de saúde, pacientes e instituições em todo o país para ampliar o debate sobre Lúpus Eritematoso Sistêmico, Fibromialgia, Doença de Alzheimer e Leucemia.
Em entrevista ao programa Minuto a Minuto, da Jovem Pan News Manaus, o médico reumatologista Dr. Guilherme Bulbol aprofundou o debate sobre as doenças representadas pela cor roxa (lúpus, fibromialgia) e destacou a importância de transformar informação em atitude prática dentro das famílias e das comunidades.
Logo na abertura da conversa, ao agradecer o convite e contextualizar a relevância do tema para os 62 municípios do Amazonas, o especialista reforçou que a campanha vai além de uma simples cor no calendário.
O Fevereiro Roxo nada mais é do que um lembrete, para a gente lembrar de duas doenças dentro de várias da reumatologia, que é a minha área, que é a fibromialgia e o lúpus eritematoso sistêmico. São doenças diferentes, mas que têm uma coisa muito em comum, que é a dor”, explicou.
Doenças diferentes, sinais distintos
Apesar de estarem reunidas na mesma campanha, lúpus e fibromialgia possuem naturezas distintas. O lúpus é uma doença autoimune inflamatória que pode comprometer pele, articulações, rins e até o sistema nervoso. Já a fibromialgia é uma síndrome dolorosa crônica, marcada principalmente por dor generalizada e persistente.
Ao detalhar as diferenças clínicas, Dr. Guilherme fez questão de esclarecer os principais sinais de alerta.
A fibromialgia é uma doença em que o principal sintoma é dor, e é dor no corpo todo. Aquele paciente, às vezes, não sabe te falar direito onde dói. Ele fala: ‘doutor, eu tenho dor no corpo todo’. Além de dor, costuma ter ansiedade, depressão, dor de cabeça, insônia e uma fadiga que parece que nunca descansou”, afirmou.
Sobre o lúpus, o médico destacou o caráter imunológico da doença e seus potenciais riscos.
O lúpus é uma doença autoimune. O nosso sistema imune começa a atacar células do próprio corpo. Além da dor, costuma ter inchaço nas articulações, lesões de pele, aquela mancha em asa de borboleta no rosto, pode atacar o rim, alterar exame de sangue. É uma doença que pode ser grave se não for tratada adequadamente”, alertou.
Segundo ele, embora ambas possam atingir homens e mulheres, há predominância significativa no público feminino, especialmente em idade fértil. No caso do lúpus, a proporção pode chegar a nove mulheres para cada homem diagnosticado.
Diagnóstico precoce e acompanhamento contínuo
Um dos pontos centrais da campanha é a importância do reconhecimento precoce dos sintomas. O especialista ressaltou que dores persistentes por mais de três meses, associadas a alterações de humor, sono e fadiga intensa, já justificam investigação médica.
Para a fibromialgia especificamente, se você tem dor em várias partes do corpo acima de três meses, percebe que o estresse piora essa dor, você deve ser avaliado por um profissional para estratificar se realmente é fibromialgia ou outro quadro doloroso”, orientou.
No caso do lúpus, o alerta é ainda mais criterioso: manchas na pele, inchaço nas articulações, urina espumosa e alterações em exames laboratoriais são sinais que exigem encaminhamento ao reumatologista.
Questionado sobre cura, o médico foi direto, mas ponderado.
As duas são doenças crônicas, não têm cura, mas têm tratamento. E o sucesso do tratamento é o acompanhamento. No meio do caminho podem surgir intercorrências que, quando a gente faz o acompanhamento certinho, consegue driblar e o paciente vai só melhorando ao longo do tempo.”
Atividade física: 70% do tratamento da fibromialgia
Entre as orientações práticas, uma em especial chamou atenção durante a entrevista. De forma didática, o reumatologista explicou que o tratamento da fibromialgia vai muito além da medicação.
Setenta por cento do tratamento da fibromialgia é atividade física. O problema é convencer a paciente que está com dor a começar. O início é difícil, mas é progressivo. Faz dez minutos, depois vinte, depois trinta. O exercício mexe com a química do cérebro, aumenta substâncias contra a dor e diminui as pró-dor”, detalhou.
Ele ainda reforçou que o cuidado deve ser multidisciplinar, envolvendo fisioterapeutas, educadores físicos e nutricionistas, especialmente quando há sobrepeso ou outras doenças associadas.
Informação combate preconceito
Além do aspecto clínico, o Fevereiro Roxo também busca enfrentar o estigma que ainda cerca doenças crônicas, sobretudo a fibromialgia, muitas vezes invisível aos exames laboratoriais.
O paciente faz exames e eles são normais. Ela fica pensando: ‘o que eu tenho?’. Até encontrar alguém que consiga fechar o diagnóstico. A fibromialgia não leva a óbito, mas maltrata muito. Tem paciente com ideação suicida por não conseguir conviver com dor 24 horas por dia”, relatou o médico.
Já o Fevereiro Laranja amplia o debate para a leucemia, reforçando a importância da doação de medula óssea e do diagnóstico precoce dos cânceres hematológicos.
Para o Dr. Guilherme, o papel da imprensa e da sociedade é manter o assunto em pauta durante todo o ano.
A informação é fundamental. Quanto mais cedo diagnosticar, maiores as chances de controlar a doença e preservar a qualidade de vida. E isso não deve ser lembrado só em fevereiro”, concluiu.
Por Ismael Oliveira – Redação Jovem Pan News Manaus






