A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a ocupar, de forma definitiva, o cotidiano acadêmico. Nas salas de aula, nos trabalhos universitários, nas pesquisas e até na forma como estudantes se organizam para aprender, a tecnologia já impõe desafios e exige mudanças profundas na maneira de ensinar. É o que avalia o jornalista, professor universitário e coordenador de curso de jornalismo da Faculdade Boas Novas, Hernan Herrera, entrevistado com exclusividade no programa Minuto a Minuto, apresentado pelo jornalista Caubi Cerquinho da Jovem Pan News Manaus.
Durante a conversa, Hernan destacou que a discussão sobre IA não é mais se ela deve ou não ser usada no ambiente acadêmico, mas como lidar com essa realidade de forma ética, pedagógica e responsável.
Segundo ele, a inteligência artificial já está integrada à vida social e educacional e será impossível imaginar a sociedade brasileira e a academia sem essa tecnologia nos próximos anos.
Hoje, nós não conseguimos visualizar, do ponto de vista acadêmico, como uma sociedade como a brasileira vai passar sem inteligência artificial nos próximos 10, 15 anos. Ela já está incorporada no nosso dia a dia, em qualquer processo”, afirma.
Inclusão digital e desigualdade: um desafio ampliado
Apesar das inúmeras possibilidades, Hernan alerta que a chegada da IA amplia um problema histórico do Brasil: a desigualdade de acesso à tecnologia. Para ele, a inteligência artificial surge como uma inovação potente, mas que pode aprofundar distâncias sociais se não houver políticas públicas e estratégias de inclusão.
A gente falava em internet há 20 anos com toda aquela novidade, e ainda assim não conseguimos abraçar todos. Agora, a inteligência artificial chega e gera uma crise ainda maior. Alguns têm tudo na palma da mão, outros continuam sem nada”, pontua.
Esse cenário se reflete diretamente no ensino, sobretudo em instituições públicas e em regiões onde o acesso à tecnologia ainda é limitado, criando realidades muito distintas dentro do mesmo sistema educacional.
Trabalhos acadêmicos, IA e a mudança na avaliação
Um dos pontos centrais da entrevista foi o impacto da IA na produção de trabalhos acadêmicos. Questionado sobre o uso de ferramentas como ChatGPT por estudantes, Hernan reconhece que o fenômeno é irreversível e que negar essa prática já não é uma opção viável para professores.
Dizer ‘não admito, não aceito’ não é mais suficiente. Em 2023 e 2024 ainda existia uma resistência muito grande na academia, mas hoje a sobrecarga de trabalhos feitos com inteligência artificial torna inviável se opor a essa tecnologia”, explica.
Segundo ele, professores conseguem identificar quando um texto não foi produzido pelo aluno, principalmente no ensino presencial, onde há convivência e conhecimento do estilo de escrita de cada estudante.
Você conhece como o aluno escreve, como ele fala. Quando surge um texto que não tem humanidade, que não tem o rosto daquele aluno, você percebe que aquilo não foi produzido por ele”, relata.
Ainda assim, o maior problema não é o uso da ferramenta em si, mas a ausência de leitura crítica por parte dos estudantes.
Nós percebemos algo muito preocupante: muitos alunos sequer leem o que a inteligência artificial produz. Esse, para mim, é o pior problema. Porque, se ele não lê, ele não aprende”, alerta.
Ensinar a usar, não apenas proibir
Diante desse novo cenário, Hernan defende uma mudança profunda nas metodologias de ensino. Em vez de combater a tecnologia, o papel do professor passa a ser o de orientar o uso consciente da IA, garantindo que o aluno aprenda mesmo utilizando ferramentas tecnológicas.
O nosso desafio não é apenas passar conteúdo, mas fazer com que aquela pessoa aprenda. Quando vejo que o aluno usa IA para tudo, cabe a mim ensinar como utilizar corretamente esses dispositivos”, afirma.
Para ele, a inteligência artificial deve ser tratada como ferramenta auxiliar, nunca como substituta do pensamento crítico.
A IA chegou, não tem como negar. Mas ela precisa ser administrada para que o aluno aprenda o mínimo daquilo que está sendo apresentado”, reforça.
Mercado de trabalho ainda cobra conhecimento real
Ao projetar os impactos a longo prazo, Hernan faz um alerta direto aos estudantes: o uso indiscriminado da IA pode gerar prejuízos sérios na vida profissional.
O mercado quer prova. Mesmo que você consiga se formar colando, seja da enciclopédia, do Google ou da inteligência artificial, o mercado reprova”, afirma.
Segundo ele, a tecnologia pode até ajudar momentaneamente, mas não sustenta uma carreira.
Quem não construiu base, não se mantém. Pode até ser segurado por um tempo, mas não permanentemente. O maior prejuízo é para o próprio aluno”, destaca.
Novo perfil de estudante e de jornalista
Professor de jornalismo, Hernan observa que o perfil dos alunos mudou significativamente com o avanço tecnológico. Se antes o processo de aprendizagem exigia encontros presenciais, bibliotecas e mais tempo de dedicação, hoje a agilidade e a facilidade de acesso transformaram a relação com o estudo.
Hoje é inimaginável pensar que um aluno precise ir à casa do colega no domingo para fazer um trabalho. Tudo se resolve por videoconferência, WhatsApp, internet”, comenta.
Apesar disso, ele reconhece que os trabalhos atuais são mais profissionais e tecnicamente bem apresentados. A diferença, segundo ele, está no envolvimento real com o aprendizado.
Quanto mais difícil o processo, mais você valoriza. A facilidade tecnológica diminuiu essa percepção”, analisa.
Sobre a formação em jornalismo, Hernan afirma que o mercado continuará separando quem tem vocação e brilho nos olhos daqueles que apenas buscam visibilidade.
Sempre vai existir aquele aluno que se destaca, que tem paixão pela comunicação. Esse, daqui a 10 ou 15 anos, estará bem posicionado no mercado”, avalia.
Empreendedorismo e novas possibilidades na comunicação
Atualmente coordenador do curso de Jornalismo da Faculdade Boas Novas, Hernan destaca que a formação acadêmica também precisou se adaptar às novas realidades do mercado, incorporando disciplinas voltadas ao empreendedorismo e às mídias digitais.
Nunca foi tão fácil criar um meio de comunicação. Com internet e um computador, você tem um blog, uma rádio online, uma rede social que pode gerar renda”, explica.
Segundo ele, despertar essa visão nos estudantes é fundamental para ampliar oportunidades e fortalecer o ecossistema da comunicação.
IA: respeito, desconfiança e pensamento crítico
Para quem ainda tem receio da inteligência artificial, Hernan deixa um conselho claro: desconfiar é saudável evitar o uso, não.
Tenha receio, desconfie sempre do que vem da IA. Mas não tenha medo de usar. O que vai diferenciar os profissionais daqui para frente é o pensamento crítico”, afirma.
Ele reforça que a IA pode gerar informações equivocadas de forma convincente e que cabe ao ser humano filtrar, validar e decidir.
A inteligência artificial é coadjuvante. Se você acha que ela vai substituir o seu pensamento, você já está fora do mercado”, conclui.
A entrevista com Hernan Herrera evidencia que a inteligência artificial não é inimiga da educação, mas exige responsabilidade, ética e uma profunda revisão das práticas pedagógicas. No centro desse debate, permanece insubstituível aquilo que nenhuma máquina consegue reproduzir: o pensamento crítico, a consciência e a aprendizagem real.
Por Ismael Oliveira
Redação Jovem Pan News Manaus






