Exclusiva: Nutricionista alerta para avanço do câncer colorretal entre jovens no Amazonas e reforça papel da alimentação na prevenção

A nutricionista oncológica Beatriz Fiuza, destaca aumento de casos antes dos 50 anos, impacto dos ultraprocessados e importância do diagnóstico precoce durante o Março Azul.

O câncer de intestino, também conhecido como câncer colorretal, deixou de ser uma doença predominantemente associada ao envelhecimento. Dados nacionais e a realidade observada nos ambulatórios do Amazonas mostram um crescimento preocupante de casos em adultos cada vez mais jovens, muitos deles com menos de 40 anos.

A doença atinge o intestino grosso (cólon) e o reto (porção final do intestino antes do ânus) e, quando diagnosticada precocemente, pode ter até 90% de chance de cura. Ainda assim, o desconhecimento dos sintomas e a demora em procurar atendimento médico continuam sendo entraves para o diagnóstico em fases iniciais.

Para aprofundar o tema, o programa conversou com a nutricionista oncológica Beatriz Fiuza, especialista pela Sociedade Brasileira de Nutrição Oncológica (SBNO) e pela PUC-Rio, mestranda em cirurgia pela UFAM, nutricionista da Fundação CECON e do setor de oncologia do Hospital Adventista, além de atender no Instituto Senescer.

Logo no início da entrevista, ao relembrar sua trajetória profissional e o caminho que a levou à oncologia, a especialista destacou como a vivência acadêmica e o contato precoce com pesquisas sobre câncer moldaram sua atuação clínica atual.

Comecei na iniciação científica estudando câncer e composição corporal. Depois veio a Covid, e eu me dediquei ainda mais porque era necessário oferecer suporte nutricional aos pacientes. Quando me formei, permaneci como voluntária até surgir minha primeira oportunidade de trabalho. Hoje atuo no ambulatório da Fundação CECON e faço mestrado em cirurgia pela UFAM, com foco em pacientes com câncer colorretal”, relatou.

O que é o câncer colorretal?

Segundo a nutricionista, é importante diferenciar os tipos de tumores da região intestinal para que a população compreenda que não se trata de uma única doença.

O câncer colorretal acomete o intestino grosso e o reto, que é a porção antes do ânus. Já o câncer do canal anal é outro tipo de neoplasia, com tratamento diferente”, explicou.

O tratamento pode envolver cirurgia geralmente a primeira linha terapêutica e, em alguns casos, quimioterapia e radioterapia antes do procedimento cirúrgico para reduzir o tamanho do tumor.

Casos crescem entre jovens

Historicamente associado a pessoas acima dos 50 anos, o câncer colorretal passou a apresentar aumento significativo em faixas etárias mais jovens.

No Brasil e no mundo, ele já ocupa o terceiro lugar em incidência tanto em homens quanto em mulheres. E a gente tem visto cada vez mais casos em pessoas jovens. Já acompanhei pacientes de 25 anos com diagnóstico confirmado”, alertou.

Ela destaca que, embora exista componente hereditário — responsável por uma parcela dos casos — o estilo de vida ainda é o principal fator de risco.

Pode haver uma carga hereditária, mas o estilo de vida representa a maior parte. O que a gente plantou há 10, 15 anos, especialmente com o boom dos ultraprocessados, estamos colhendo agora”, destacou.

Ultraprocessados e carnes embutidas: vilões silenciosos

Durante a entrevista, a especialista explicou de forma didática o que são alimentos ultraprocessados e por que eles representam risco à saúde intestinal.

Tudo que vem de caixinha, latinha, com longa validade e uma lista extensa de ingredientes, é considerado ultraprocessado. Quanto maior a lista de ingredientes, maior o risco”, afirmou.

Entre os principais fatores associados ao câncer colorretal estão o consumo frequente de carnes embutidas, como salsicha, calabresa e salame, além do preparo de carnes em altas temperaturas. O excesso de alimentos industrializados, o sedentarismo, a obesidade, o consumo de bebidas alcoólicas, o tabagismo e a baixa ingestão de fibras e cálcio também aumentam significativamente o risco de desenvolvimento da doença.

A nutricionista faz um alerta especial sobre o preparo das carnes, especialmente no churrasco prática cultural bastante comum na região.

A gordura que pinga no carvão libera substâncias cancerígenas que alteram o DNA. Não é que o churrasco esteja proibido, mas a carne não pode estar tostada. O ideal é escolher cortes mais magros e evitar que fiquem diretamente sobre a chama”, orientou.

Ela ainda compartilhou uma recomendação prática pouco conhecida.

Marinar a carne no limão, alho e ervas ajuda a reduzir compostos que poderiam se formar durante o preparo em alta temperatura. É uma estratégia simples que faz diferença,” disse.

Sintomas que não devem ser ignorados

Um dos pontos mais enfatizados por Beatriz Fiuza é que o câncer não surge de forma repentina. Ele “dá sinais” ao longo do tempo — e ignorá-los pode atrasar o diagnóstico.

O câncer não aparece de uma hora para outra. Ele vai sussurrando. Cabe a gente ouvir ou não,”pontuou.

Ela explica que mudanças persistentes no hábito intestinal precisam de atenção. Tanto episódios frequentes de diarreia quanto prisão de ventre prolongada podem ser sinais de alerta. A presença de sangue nas fezes (ainda que em pequena quantidade) também não deve ser ignorada. Outro indicativo importante é a alteração no formato das fezes, que podem se tornar mais finas, em formato de fita. Dores abdominais recorrentes, sensação de evacuação incompleta, náuseas, vômitos e perda de peso sem causa aparente completam o quadro de sintomas que exigem investigação médica.

Muitos pacientes relatam que tinham diarreia com sangue há meses, mas foram deixando para depois, achando que era hemorroida. Quando procuram ajuda, às vezes o diagnóstico já está em estágio avançado,” comentou.

Diagnóstico precoce salva vidas

Para a detecção precoce, dois exames são considerados fundamentais. O primeiro é o Teste FIT, que identifica a presença de sangue oculto nas fezes, aquele que não é visível a olho nu. O segundo é a colonoscopia, exame que permite visualizar diretamente o interior do intestino e identificar pólipos ou lesões suspeitas.

A colonoscopia é recomendada a partir dos 45 anos, mesmo para quem não apresenta sintomas, e pode ser antecipada em casos de histórico familiar ou sinais clínicos persistentes.

Se eu faço a colonoscopia e retiro um pólipo ainda no início, eu posso evitar que ele evolua para câncer. O exame é feito com sedação e está disponível na rede pública mediante encaminhamento,” esclareceu.

Quando diagnosticado precocemente, o câncer colorretal pode ter até 90% de chance de cura. O tratamento pode envolver cirurgia, quimioterapia, radioterapia e terapias biológicas, dependendo do estágio e da localização do tumor.

Março Azul e conscientização

Março é o mês de conscientização sobre o câncer colorretal, conhecido como Março Azul-Marinho. A campanha vem ganhando mais visibilidade nos últimos anos, especialmente com relatos públicos de pacientes conhecidos.

Quando pessoas públicas falam sobre a doença, isso ajuda a quebrar o tabu e incentiva outras pessoas a buscarem informação e exames”, pontuou.

Ainda assim, segundo ela, o tema precisa de mais espaço nas campanhas locais.

Falamos muito e com razão sobre câncer de colo do útero e câncer de mama, mas o câncer colorretal também precisa de atenção. Muitas vidas poderiam ser salvas com informação,” destacou.

Alimentação após o diagnóstico

Questionada sobre a dieta de pacientes já diagnosticados, a especialista reforça que as orientações precisam considerar a realidade socioeconômica de cada pessoa.

Atendemos muitos pacientes em situação de vulnerabilidade, que vêm do interior e, às vezes, precisam escolher entre se alimentar e pagar o transporte para o tratamento. Não dá para fazer uma prescrição desconectada da realidade, ” mencionou.

O foco é estimular alimentos mais naturais, respeitando sazonalidade e acesso.

Se não posso retirar tudo de uma vez, eu ajusto. Incentivo mais peixe da época, ovo, frango. Pequenas mudanças sustentáveis são mais eficazes do que restrições radicais,” reforçou.

Um recado final

Ao encerrar a entrevista, a nutricionista deixou uma mensagem direta à população.

Olhe para o seu corpo. As escolhas que você faz hoje vão impactar o seu futuro. Estamos vivendo mais, mas precisamos viver melhor,”observou.

Entre exames adiados, sintomas ignorados e hábitos alimentares desequilibrados, o câncer colorretal avança silenciosamente. A informação, aliada à prevenção e ao diagnóstico precoce, continua sendo a ferramenta mais poderosa para mudar esse cenário.

Por Ismael Oliveira – Redação Jovem Pan News Manaus