Exclusivo: “Governo recuou diante da pressão indígena”, avalia Diogo de Vasconcelos sobre revogação do Decreto 12.600

Especialista analisou no programa Radar de Notícias os impactos da decisão que suspendeu estudos sobre hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Araguaia

A revogação do Decreto 12.600, que previa estudos para empreendimentos e possíveis concessões de hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Araguaia, foi analisada nesta terça-feira, 24, no programa Radar de Notícias, durante o quadro Momento Sustentável, com a participação do especialista em meio ambiente Diogo de Vasconcelos.

O decreto incluía trechos estratégicos dessas bacias no Programa Nacional de Desestatização. O Rio Tapajós corta o estado do Pará e é um dos principais corredores de escoamento de grãos do Centro-Oeste até os portos do Norte. O Rio Madeira atravessa Rondônia e o Amazonas, sendo fundamental para a logística da Zona Franca de Manaus e para o transporte fluvial na região. Já o Rio Araguaia passa por estados como Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará.

A medida vinha sendo contestada por lideranças indígenas, principalmente da região do Tapajós, que ocuparam por 33 dias a área de acesso ao porto de Santarém, no Pará — um dos principais pontos de exportação de soja pelo chamado “corredor Norte”.

Durante a entrevista no Radar de Notícias, Diogo afirmou que a principal crítica apresentada pelos povos indígenas foi a ausência de consulta prévia, conforme prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

“Eles alegam que não houve consulta e também apontam riscos ambientais e sociais, especialmente relacionados à dragagem dos rios”, disse.

Segundo o especialista, no caso do Tapajós, há preocupação com áreas impactadas por garimpo.

“Existe receio de que a dragagem revolva sedimentos contaminados por mercúrio, o que pode trazer consequências ambientais e de saúde pública”, explicou no programa.

A decisão de revogar o decreto foi anunciada pelos ministros Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, e Sônia Guajajara, dos Povos Indígenas, após reunião com representantes do movimento. O ato será publicado no Diário Oficial da União.

Ainda durante o Radar de Notícias, Diogo avaliou que o governo optou por suspender a medida diante da pressão política e social.

“Foi uma mobilização intensa, com repercussão nacional. O governo decidiu recuar e reabrir a discussão”, afirmou.

Ele também destacou que o tema envolve interesses estratégicos para o país. O Tapajós e o Madeira são considerados eixos logísticos importantes para o escoamento da produção agrícola do Centro-Oeste e para a movimentação de cargas destinadas à Zona Franca de Manaus.

“A gente tem um dilema entre desenvolvimento logístico e respeito aos povos originários. Se não houver diálogo e planejamento técnico adequado, esses conflitos tendem a se repetir”, concluiu no programa.

O Governo Federal informou que a revogação reafirma o compromisso com a escuta ativa da sociedade e com a sustentabilidade ambiental.

 

Assista à entrevista completa no canal da Jovem Pan News Manaus:

Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus