A obra “Operários” (1933), de Tarsila do Amaral, volta a provocar reflexões sobre o mundo do trabalho em meio aos debates atuais no Congresso Nacional sobre o fim da escala 6 por 1. A tela integra a exposição “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral”, que começa nesta quarta-feira (11), no Centro Cultural do Tribunal de Contas da União (TCU), em Brasília, com entrada gratuita.
A mostra reúne 63 trabalhos da artista modernista e marca o centenário da primeira exposição individual de Tarsila em Paris. A curadoria é das pesquisadoras Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco, que optaram por organizar as obras por núcleos temáticos, e não em ordem cronológica.
Para Paola Montenegro, sobrinha-bisneta da pintora e responsável pela gestão de seu legado, a atualidade da obra “Operários” permite que o público estabeleça conexões com questões contemporâneas.
“Hoje, a gente consegue observar obras que foram feitas há 100 anos e ainda verificar tanta força”, afirmou.
Segundo ela, a pintura representa trabalhadores de diferentes idades e origens, retratados diante de fábricas, e permite refletir sobre condições de trabalho, acesso a direitos e qualidade de vida.
Além de “Operários”, a exposição apresenta outras obras que abordam temas sociais, como “Segunda Classe” (1933) e “Costureiras” (1950), reunidas no eixo temático “olhar o outro”, voltado à desigualdade e à exploração do trabalho.
A curadora Karina Santiago destaca que a produção de Tarsila revela diferentes perspectivas ao longo do tempo, desde os trabalhos figurativos dos anos 1910 até o período posterior à década de 1930, marcado por maior atenção às questões sociais. Segundo ela, esse percurso contribui para uma leitura sobre o Brasil e o contexto vivido pela artista.
Entre as obras presentes na mostra estão também “Auto-Retrato” (1923), “Palmeiras” (1925) e “São Paulo” (1924), que integram outros núcleos temáticos, como “estar no mundo”, “olhar o mundo” e “mergulho no onírico”, voltado à imaginação e ao sonho.
Rachel Vallego afirma que, a partir da década de 1930, após as perdas financeiras da família com a crise de 1929, Tarsila passou a demonstrar maior atenção ao funcionamento da sociedade e às relações sociais.
“Todas as pessoas nos olham diretamente. Ela demonstra um olhar mais social e equilibrado”, disse.
A exposição também conta com uma sala imersiva, com videografismo que reúne elementos recorrentes na obra da artista, como o símbolo do sapo, e animações inspiradas em telas como “A Cuca” (1924), “Abaporu” (1928), “Sol Poente” (1929), “Cartão Postal” (1929) e “Antropofagia” (1929). O material foi desenvolvido sem uso de inteligência artificial e tem curadoria de Paola Montenegro e da cientista social Juliana Miraldi.
A proposta da sala é ampliar a experiência do público, incluindo crianças, com recursos audiovisuais e espaços interativos para fotos e vídeos.
Paola Montenegro afirma que a exposição foi estruturada como um percurso que passa pela história do Brasil, pelas relações sociais e pela visão de mundo da artista, com o objetivo de ampliar o acesso à obra de Tarsila em diferentes regiões do país.
A pesquisadora Rachel Vallego também aponta aspectos da trajetória pessoal da artista que dialogam com pautas contemporâneas, como a autonomia feminina. Segundo ela, Tarsila interrompeu um casamento nos anos 1910 e manteve sua carreira artística com apoio familiar, em um contexto social pouco favorável às mulheres.
A mostra ficará em cartaz em Brasília até 10 de maio. De acordo com a diretora do Instituto Serzedello Corrêa, Ana Cristina Novaes, responsável pelo centro cultural, estão previstas ações voltadas à visitação de escolas e instituições de ensino durante o período da exposição.
Com informações da Agência Brasil*
Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus






