Fósseis mostram que peixe do Triássico já planava fora d’água milhões de anos antes das aves

Thoracopteridae desenvolveu nadadeiras em forma de “asas” e usava saltos e planeio para fugir de predadores nos mares pré-históricos

Muito antes de aves levantarem voo e de insetos ocuparem o espaço aéreo, um grupo de peixes já havia desenvolvido uma forma de locomoção fora da água. Fósseis do grupo Thoracopteridae, que viveu no Triássico Superior, entre cerca de 235 e 201 milhões de anos atrás, indicam que esses animais conseguiam saltar e planar acima da superfície do mar usando nadadeiras alongadas que funcionavam como “asas”.

Pesquisas publicadas em periódicos científicos como PNAS e Nature Scientific Reports mostram que esses peixes não apenas saltavam para fora da água, mas possuíam nadadeiras peitorais rígidas e muito alongadas, com estrutura óssea capaz de sustentar um deslocamento aéreo de curta duração. O comportamento é considerado análogo ao dos atuais peixes-voadores, mas ocorreu mais de 200 milhões de anos antes.

Os Thoracopteridae viveram em um período em que os oceanos eram dominados por peixes rápidos e ammonites, enquanto grandes predadores marinhos, como ictiossauros e notossauros, ocupavam o topo da cadeia alimentar. A Terra ainda era formada pelo supercontinente Pangeia, e o clima era quente, sem calotas polares. Nesse cenário, a pressão de predadores favoreceu estratégias de fuga, entre elas o salto para fora da água.

A anatomia desses peixes revela um conjunto de adaptações específicas. As nadadeiras peitorais eram ampliadas e rígidas, com formato triangular e alongado, sustentadas por ossos peitorais e pélvicos reforçados. A cauda, comprimida e assimétrica, funcionava como um motor de impulso para lançar o animal para fora da água. O corpo e o crânio eram lateralmente comprimidos, o que reduzia o arrasto durante a aceleração subaquática. Esse conjunto permitia tanto saltos verticais de fuga quanto planeios horizontais de baixa altitude por alguns metros.

Estudos aerodinâmicos indicam que a distância percorrida no ar era curta, mas suficiente para confundir predadores e ganhar tempo durante a fuga. A estratégia é semelhante à observada hoje em peixes-voadores modernos da família Exocoetidae, que podem planar por dezenas ou até centenas de metros em mares tropicais. A diferença está no tempo geológico: os Thoracopteridae realizaram esse tipo de locomoção muito antes, sendo considerados o primeiro exemplo conhecido de vertebrado marinho a utilizar o ar como extensão do ambiente de fuga.

Os fósseis mais bem preservados desse grupo foram encontrados principalmente na China e na Europa, em depósitos marinhos de rochas calcárias. Um estudo publicado em 2012 descreveu o gênero Potanichthys, que apresenta nadadeiras peitorais largas, nadadeiras pélvicas auxiliares, cauda assimétrica e outras características associadas ao planeio. Essas descobertas ajudaram a consolidar a interpretação de que o voo ou planeio fora da água não é uma inovação recente na história evolutiva.

A explicação para o surgimento desse comportamento está ligada à pressão exercida por grandes predadores do Triássico. Ao saltar para fora da água, o peixe mudava de ambiente por alguns instantes, quebrava a linha de perseguição e aumentava as chances de escapar. O mesmo princípio continua sendo observado em espécies atuais.

Embora pouco conhecidos fora do meio acadêmico, os Thoracopteridae ocupam um lugar relevante na história da evolução. Eles mostram que a combinação entre hidrodinâmica e aerodinâmica surgiu cedo entre os vertebrados e que a exploração do espaço aéreo começou no mar, muito antes de se tornar comum em terra firme.


 

Com informações da Click Pretróleo e Gás*

Por Haliandro Furtado — Redação da Jovem Pan News Manaus