Governo federal revoga decreto que previa concessão de hidrovias na Amazônia após protestos indígenas

Decisão foi anunciada após mobilizações de povos indígenas contra inclusão de rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização
Foto: SGPR/Divulgação

O governo federal revogou, nesta segunda-feira (23), o decreto que incluía trechos de rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização após mobilizações de povos indígenas contrárias à medida.

A decisão foi anunciada pelo secretário-geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, que informou que a revogação ocorreu após diálogo com comunidades indígenas que apontaram possíveis impactos em seus territórios.

O decreto havia sido assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e previa a realização de estudos técnicos para concessão de hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins.

Segundo o governo, a medida foi revista após reivindicações relacionadas a riscos socioambientais e à presença de sítios arqueológicos nas áreas afetadas.

Protestos pressionaram governo

A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, afirmou que a decisão levou em consideração a mobilização indígena, que manteve ocupações e protestos nos últimos meses.

Grupos indígenas permaneceram por 33 dias ocupando a sede da multinacional Cargill, no Pará, em manifestação contra a inclusão dos rios no programa de concessões.

Lideranças indígenas defenderam que a medida poderia afetar territórios tradicionais e alterar a dinâmica ambiental dos rios utilizados para subsistência das comunidades.

Durante as mobilizações, indígenas interceptaram uma balsa de grãos vinculada ao escoamento de soja pelo chamado Arco Norte, no Rio Tapajós. A ação foi acompanhada pela Polícia Federal e pela Marinha.

Entenda o decreto

O decreto incluía empreendimentos hidroviários federais no Programa Nacional de Desestatização, classificando trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins como prioritários para navegação de cargas e expansão logística.

O governo federal sustentava que o texto não autorizava obras nem privatização imediata das hidrovias, mas apenas estudos técnicos sobre eventual concessão dos serviços de navegabilidade.

Como parte das negociações, o Executivo também havia suspendido o pregão eletrônico relacionado ao Plano Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária (PADMA) e criado um grupo de trabalho interministerial com participação de representantes indígenas.

Crise política e apoio parlamentar

A proposta provocou tensão entre o governo federal e organizações indígenas, além de divergências dentro da própria base aliada no Congresso Nacional. Parlamentares acompanharam atos realizados no Pará em apoio às reivindicações.

Deputadas federais participaram das mobilizações e defenderam a revogação do decreto, argumentando ausência de consulta prévia às populações afetadas.

Questionamentos ambientais

Uma nota técnica do Ibama em Santarém recomendou a suspensão de iniciativas de dragagem no Rio Tapajós até a realização de estudos ambientais com participação das comunidades locais e órgãos competentes.

O documento apontou que a proposta avançava sem avaliação ambiental compatível com a complexidade ecológica e sociocultural da região, o que poderia comprometer a segurança jurídica do processo.

 

 

Com informações da InfoMoney*

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus