Governo Trump pressiona por saída de Díaz-Canel em negociações com Cuba

EUA condicionam avanço de acordos à troca de liderança na ilha e ampliam pressão econômica e diplomática.
Foto AP/Evan Vucci

O governo de Donald Trump tem defendido a saída do presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, como parte das negociações em curso entre os dois países. A proposta foi apresentada a interlocutores cubanos como um passo necessário para avançar em acordos políticos e econômicos, segundo fontes com conhecimento das tratativas.

As conversas ocorrem em meio à crise econômica na ilha e incluem temas como abertura de mercado, energia e reorganização institucional. Até o momento, o governo cubano não comentou oficialmente o teor das negociações.

A estratégia dos Estados Unidos não inclui a substituição do sistema político comandado pelo Partido Comunista de Cuba, que permanece no poder desde a revolução de 1959. A avaliação de integrantes do governo americano é de que a retirada de Díaz-Canel pode facilitar ajustes econômicos e administrativos.

Segundo relatos, não há pressão direta sobre integrantes da família Castro, que continuam exercendo influência nos bastidores do poder. Raúl Castro, mesmo fora da presidência, ainda é apontado como figura central nas decisões estratégicas.

Negociações incluem economia, energia e presos políticos

Os Estados Unidos defendem a abertura gradual da economia cubana a empresas estrangeiras, especialmente americanas, além da libertação de presos políticos e do afastamento de quadros ligados à linha histórica do regime.

Outro ponto discutido é a possível privatização de setores estratégicos, como o de energia. A proposta enfrenta resistência do governo cubano, que avalia que a medida pode ampliar a influência externa sobre a economia nacional.

Crise energética e restrições ampliam pressão

A crise energética é um dos fatores centrais nas negociações. Cuba enfrenta falhas recorrentes no fornecimento de energia e escassez de combustível. Nesta segunda-feira (16), uma falha no sistema elétrico deixou todo o país sem luz.

O cenário foi agravado por medidas adotadas pelos Estados Unidos, como restrições à importação de petróleo. O impacto também se estende a países parceiros. O México, por exemplo, interrompeu o envio de petróleo à ilha após pressões diplomáticas.

Em pronunciamento, Díaz-Canel atribuiu a situação às sanções.

“O governo não tem culpa, a revolução não tem culpa. A culpa é do bloqueio energético que nos foi imposto”, afirmou.

A estratégia dos Estados Unidos em Cuba segue linha semelhante à adotada na Venezuela, onde o governo americano atuou para retirar Nicolás Maduro do poder. No caso cubano, porém, a possibilidade de ação militar é considerada improvável, e a prioridade é uma solução negociada.

A atuação americana também afetou a relação energética entre os dois países, já que a Venezuela era uma das principais fornecedoras de petróleo para Cuba.

Mesmo com a eventual saída de Díaz-Canel, a estrutura de poder em Cuba deve permanecer concentrada em instituições ligadas ao Partido Comunista e às Forças Armadas.

O conglomerado Gaesa controla setores estratégicos como turismo, varejo e infraestrutura, e exerce influência na condução econômica do país.

Analistas apontam que a posição de Díaz-Canel é limitada dentro dessa estrutura, sendo visto como um gestor formal sem controle direto sobre áreas-chave.

Desde que assumiu o governo em 2018, Díaz-Canel enfrentou protestos registrados em julho de 2021, considerados os maiores em décadas. As manifestações foram seguidas por prisões, processos judiciais e condenações.

O presidente foi escolhido como sucessor por Raúl Castro e é o primeiro governante sem o sobrenome Castro desde Fidel Castro.

Entre os nomes envolvidos nas negociações está Raúl Guillermo Rodríguez Castro, que mantém interlocução com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.

Outro nome citado no cenário político é Oscar Pérez-Oliva Fraga, que recentemente tratou da abertura econômica em entrevista a uma emissora americana.

A Casa Branca sinalizou que não deve formalizar acordos com Cuba enquanto Díaz-Canel permanecer no cargo. O próprio Trump comentou o tema ao ser questionado sobre o futuro da ilha.

“Acredito que terei a honra de assumir o controle de Cuba”, disse, sem detalhar se a medida seria diplomática ou de outra natureza.

Especialistas avaliam que a eventual saída de Díaz-Canel teria impacto político limitado sem mudanças estruturais no regime.

Para o ex-assessor de segurança nacional Ricardo Zúniga, a medida pode facilitar negociações.

“Para mim, faz todo o sentido; é o que eu teria feito. O capitão afunda com o navio, e este navio está afundando”, afirmou.

Já a socióloga Marlene Azor Hernández defende mudanças mais amplas.

“Sim, eles precisam se livrar dele —junto com todo o bureau político do Partido Comunista e da Gaesa. Acho que ele fez um trabalho ruim, mas é uma figura decorativa totalmente manipulada”, disse.

As tratativas entre Estados Unidos e Cuba seguem em andamento, sem definição sobre a saída de Díaz-Canel ou a implementação de medidas econômicas e políticas. O cenário envolve pressão externa, crise interna e disputas dentro da estrutura de poder cubana.


Com informações da Folha de São Paulo*

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus