À medida que a próxima Copa do Mundo se aproxima, um movimento fora das quatro linhas tem chamado atenção no futebol global: a troca de nacionalidade esportiva por parte de jogadores em busca de espaço em seleções. Impulsionada pela ampliação do torneio para 48 equipes, a tendência tem se intensificado nos últimos meses.
Desde março, quase uma centena de mudanças de associação foi registrada em uma plataforma criada pela FIFA para monitorar esse tipo de transição. O sistema, lançado em fevereiro, reúne casos de atletas que passam a defender novas seleções, muitas vezes com o objetivo de aumentar as chances de disputar o Mundial de 2026.
Algumas dessas mudanças já tiveram impacto direto nas eliminatórias. O atacante Joël Piroe, nascido na Holanda e com ascendência surinamesa, passou a representar o Suriname em março e participou da repescagem, na derrota para a Bolívia.
Outro tipo de movimentação envolve jogadores que retornam ao país de origem após passagem por seleções de base de outras nações. A Seleção Austríaca de Futebol incorporou recentemente Paul Wanner e Carney Chukwuemeka, que haviam defendido Alemanha e Inglaterra nas categorias inferiores. Sem espaço nas equipes principais, ambos optaram pela mudança e já estrearam em compromissos recentes — com direito a gol de Chukwuemeka na vitória por 5 a 1 sobre Gana.
Para especialistas, o fenômeno não se resume apenas à busca por oportunidades esportivas. O pesquisador Luis Felipe Herdy destaca que há também uma revalorização dos vínculos culturais e familiares nesse processo.
“Parte desses processos são estabelecidos a partir de um entendimento de que há maior probabilidade de disputar uma competição relevante, por uma seleção menor. Mas existe também o fato de alguns jogadores reatarem laços com essa hereditariedade. Há, nos últimos anos, um processo de fortalecimento de um discurso que coloca novas facetas. Por muito tempo criou-se uma dimensão de pensar num sistema internacional que colocou para alguns países uma posição de inferioridade, mas recentemente temos tido um fortalecimento de retórica nacional, de identificação e da necessidade desses países excluídos de se colocarem à disposição” afirma.
No continente africano, seleções têm adotado estratégias ativas para atrair jogadores com dupla nacionalidade. A Seleção Marroquina de Futebol é um dos principais exemplos recentes. Após a campanha de destaque na Copa de 2022, a federação intensificou o contato com atletas formados na Europa, muitos deles com origem marroquina.
Esse movimento tem sido acompanhado por outras seleções, como Senegal, que também investem em estrutura e planejamento para convencer jogadores a optarem por suas seleções. Segundo o comentarista Luis Fernando Filho, o fator decisivo vai além da identidade.
— Não existe nenhum tipo de movimento mais concreto se você não tem um projeto esportivo. Não tem amor que resista a uma seleção ou federação que não dê condições para esses jogadores performarem. Então é muito importante falar de seleções como Senegal e Marrocos, que são seleções que fazem esse processo de captação. Tem pessoas muito competentes nessas duas federações que conseguem olhar com uma lupa melhor onde estão esses talentos. Marrocos foi além do óbvio, não ficou só na França, foi olhar suas grandes comunidades na Bélgica, por exemplo. Senegal vem fazendo esse mesmo movimento também.
Tem o amor, tem a identificação, mas tem sobretudo um projeto esportivo sério e consistente para esses atletas aceitarem representar uma seleção africana.
— Luis Fernando Filho
Outros casos recentes ilustram a diversidade das mudanças. O meia Maurício iniciou processo de naturalização para defender o Paraguai, enquanto Rani Khedira passou a representar a Tunísia e já atuou em amistoso contra o Canadá.
Com a proximidade da Copa do Mundo de 2026, a expectativa é de que o número de trocas continue crescendo. A combinação entre oportunidade esportiva, identidade cultural e planejamento das federações tem redefinido o mapa das seleções no futebol internacional.
Com informações do GE.GLOBO*
Por Victoria Medeiros, da Redação da Jovem Pan News Manaus
Foto: Reprodução






