Maduro: a queda de um tirano.

por Arthur Virgílio Neto

Acompanhei de perto, ao longo dos anos, a lenta e dolorosa degradação da Venezuela sob o comando de um regime que fez da arbitrariedade um método e da miséria um instrumento de poder. Como gestor público na Amazônia e como diplomata de formação, não pude me dar ao luxo da indiferença. A tragédia venezuelana deixou, há muito, de ser um drama circunscrito às suas fronteiras; ela se tornou uma realidade concreta, palpável e humana em nossa região, impondo-se a todos nós como um alerta civilizatório e um desafio direto às soberanias nacionais.

Sempre sustentei que a soberania de um país não pode servir de escudo para a perpetuação da tirania. Ainda assim, também defendi, com igual convicção, que qualquer forma de intervenção externa, especialmente a intervenção militar americana, deveria ser encarada apenas como a última das opções, quando todas as vias diplomáticas, políticas e humanitárias estivessem absolutamente esgotadas. A diplomacia existe precisamente para evitar que os conflitos descambem para a força bruta, e abdicar dela prematuramente seria uma derrota coletiva.

Por isso, não escondo meu sentimento de alívio ao ver Nicolás Maduro afastado do centro do poder. Não se trata de regozijo leviano, tampouco de revanchismo ideológico, mas da constatação de que nenhum povo deve permanecer indefinidamente submetido à opressão, à asfixia institucional e à supressão sistemática de suas liberdades. O regime que se consolidou na Venezuela não foi um projeto de nação, mas uma engrenagem autoritária que corroeu o tecido social, desfigurou a economia e empurrou milhões de cidadãos ao exílio forçado, à fome e à desesperança, comprometendo não apenas a soberania venezuelana, mas também a estabilidade e a dignidade da região.

A queda de um tirano, ainda que parcial ou provisória, inaugura sempre uma possibilidade histórica. Abre-se uma fissura no edifício do medo, e por essa fresta começa a infiltrar-se a ideia, simples e poderosa, de que a normalidade democrática pode ser restaurada. O povo venezuelano, tão duramente castigado, merece a oportunidade de reconstruir sua vida política sem a tutela da coerção, da intimidação e da mentira institucionalizada.

Nesse novo contexto, acredito que pode, sim, emergir um momento renovado de solidariedade e civilidade na diplomacia dos países vizinhos. A América do Sul tem diante de si a oportunidade de abandonar ambiguidades, omissões e alinhamentos coniventes, e de construir uma atuação regional mais responsável, pautada pelo respeito mútuo entre as soberanias, mas também pela rejeição inequívoca a regimes ditatoriais. Não se trata de interferência indevida, mas de compromisso moral com a democracia e com a dignidade humana.

É nesse horizonte que deposito minha esperança em Maria Corina Machado. Vejo em sua trajetória um raro compromisso com a coerência moral e com a defesa intransigente da democracia. Sua postura firme, avessa a concessões oportunistas e resistente às tentações do autoritarismo disfarçado, representa para muitos venezuelanos, e para mim, a possibilidade de uma ruptura verdadeira com o ciclo de populismo, caudilhismo e degradação institucional que assolou o país.

Desejo, sinceramente, que este momento não se configure apenas como um interregno na história da tirania venezuelana, mas como o início de uma transição profunda e irreversível. A história nos ensina que nenhum regime sustentado pelo medo é eterno. Quando o medo começa a ruir, mesmo que lentamente, a esperança encontra terreno para florescer. E quando isso ocorre, não é apenas um país que se liberta; é a própria ideia de liberdade e de convivência civilizada entre as nações que se reafirma.

 

por Arthur Virgílio Neto