Quando olhamos para o céu estrelado sobre a Amazônia, muitas vezes imaginamos beleza, vastidão e mistério. Mas o que poucos veem, ou querem admitir, é que estamos criando outro tipo de céu: um lixão metálico orbitando nosso planeta. O espaço ao redor da Terra já está lotado de objetos humanos obsoletos, pedaços de satélites, estágios de foguetes e fragmentos de colisões que não servem mais para nada além de ameaçar tudo o mais que ainda funciona.
O preço do “progresso”: o lixo espacial que ameaça nosso futuro
Em pouco mais de 60 anos de exploração espacial, a humanidade conseguiu transformar a órbita da Terra em mais um depósito de resíduos. Hoje, mais de 130 milhões de objetos giram ao redor do planeta. Cerca de 34 mil têm mais de 10 centímetros, tamanho suficiente para destruir satélites ativos a velocidades superiores a 27 mil km/h.
Esse cenário alimenta um risco conhecido como Síndrome de Kessler: colisões que geram novos fragmentos, que provocam novas colisões, em um efeito dominó capaz de tornar partes da órbita inutilizáveis por gerações.
Nada disso desaparece. Satélites inativos, pedaços de foguetes e fragmentos metálicos continuam circulando indefinidamente, aumentando a chance de acidentes graves. É o mesmo modelo de exploração predatória que vemos na Terra — agora projetado no céu.
A corrida tecnológica que também polui o espaço
Dados do Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Exterior (UNOOSA) indicam que existem hoje cerca de 11.700 satélites em órbita, muitos deles já inoperantes. A maioria está concentrada na órbita baixa terrestre (LEO), onde o congestionamento cresce rapidamente.
Só a Starlink, da SpaceX, já colocou mais de 6 mil satélites no espaço. O plano prevê quase 12 mil em curto prazo, com autorização para chegar a 34.400. Segundo projeções da ONU, outros 100 mil satélites podem ser lançados na próxima década.
É o “progresso” repetindo seu roteiro conhecido: ocupa, explora, descarta, e segue adiante sem freios.
Tentativas de limpar o estrago
Enquanto algumas empresas aceleram lançamentos, outras tentam, tardiamente, lidar com as consequências. Projetos como a japonesa Astroscale, a missão europeia ClearSpace-1 e o experimento RemoveDEBRIS testam redes, braços robóticos e sistemas de captura de detritos.
São iniciativas importantes, mas ainda insuficientes diante da escala do problema. A limpeza do espaço avança em ritmo muito mais lento do que a produção de lixo orbital.
O alerta é claro, imediato e global
Agências como a ESA alertam que o lixo espacial já ameaça não só satélites e missões tripuladas, mas também a própria sustentabilidade da exploração espacial. Estudos indicam que a reentrada desses detritos pode liberar partículas metálicas na atmosfera e gerar impactos ambientais ainda pouco compreendidos, inclusive sobre o campo magnético da Terra.
O lixo espacial é um espelho incômodo da humanidade: incapaz de cuidar do próprio planeta, levamos nossa lógica de consumo e descarte para além da atmosfera. Não são OVNIs que deveriam nos preocupar, são os “OVIs” os Objetos Voadores Identificáveis, somos nós mesmos, espalhando destroços por onde passamos.
A mensagem é clara: se não podemos preservar o lar que ainda temos, a Terra, como podemos esperar manter limpo o que está além dela? O lixo no espaço não é apenas um problema tecnológico, é um símbolo da nossa relação predatória com o ambiente e um alerta de que, mesmo no cosmos, não escaparemos das consequências de nossas escolhas aqui na Terra.
Fonte: ESA (Agência Espacial Europeia), national Geografic, IFL Science*
Por Tatiana Sobreira, da redação da Jovem Pan News Manaus- Coluna Soul do Norte






