Pão de Açúcar pede recuperação extrajudicial para renegociar dívida de R$ 4,5 bilhões

Grupo firmou acordo com bancos credores e terá 90 dias para ampliar adesão ao plano de reestruturação.

O GPA (Grupo Pão de Açúcar) anunciou nesta terça-feira (10), um acordo com parte de seus credores para apresentar um plano de recuperação extrajudicial envolvendo dívidas de R$ 4,5 bilhões. A medida foi adotada após a empresa indicar em seu último balanço incerteza sobre a continuidade operacional.

Na recuperação extrajudicial, a empresa negocia diretamente com um grupo de credores e posteriormente busca homologação na Justiça. Diferentemente da recuperação judicial, o processo não inclui todas as dívidas da companhia.

No caso do GPA, os principais credores são bancos. O acordo foi firmado com instituições financeiras que concentram 46% dos créditos incluídos no plano, o equivalente a R$ 2,1 bilhões.

Segundo comunicado da empresa, obrigações com fornecedores, parceiros comerciais, clientes e funcionários ficaram fora da negociação.

“Ficam expressamente excluídas obrigações correntes junto a fornecedores, parceiros e clientes, bem como obrigações trabalhistas, que não serão afetadas”, informou a companhia.

Após o anúncio do plano, as ações do GPA registraram queda no pregão da B3. No início das negociações desta terça-feira, os papéis chegaram a cair mais de 8% e entraram em leilão.

Por volta das 10h30, as ações recuavam cerca de 4%, cotadas a R$ 2,62. No dia 3 de março, a companhia enviou uma carta a fornecedores para afirmar que os pagamentos continuam sendo realizados normalmente.

No documento, o CEO Alexandre Santoro informou que as negociações envolvem apenas credores financeiros, como bancos e detentores de títulos da dívida da empresa, e não impactam parceiros comerciais.

A carta foi enviada um dia após a agência de classificação de risco Fitch rebaixar a nota do grupo de “A” para “CCC”. A classificação indica risco elevado de inadimplência e capacidade fraca de pagamento.

Foi o segundo rebaixamento desde novembro, quando o GPA perdeu a nota “AA”. A Fitch apontou aumento do risco de refinanciamento da dívida, redução da liquidez e previsão de fluxo de caixa livre negativo nos próximos anos caso o endividamento não seja reduzido.

Plano suspende temporariamente pagamento de dívidas financeiras

Segundo o GPA, o acordo com os credores prevê a suspensão temporária das obrigações financeiras incluídas no plano.

Com isso, a empresa terá um período de 90 dias para ampliar a adesão dos credores e negociar uma solução definitiva para a estrutura de capital.

Durante esse prazo, a companhia busca reorganizar o perfil de endividamento e restabelecer equilíbrio financeiro.

A varejista informou que a recuperação extrajudicial foi estruturada para manter a operação das lojas. Segundo a empresa, as unidades continuam funcionando normalmente e o abastecimento não será afetado.

A decisão foi aprovada por unanimidade pelo conselho de administração.

Mudanças no controle acionário

O GPA foi controlado pelo grupo francês Casino entre 2012 e 2023. Nesse período, ativos foram vendidos como parte de uma estratégia para reduzir o endividamento do grupo controlador na França.

Entre 2012 e 2023, a rede registrou redução de 64% na receita bruta.

Entre 2024 e o início de 2025, o Casino reduziu gradualmente sua participação acionária. Em maio do ano passado, a família Coelho Diniz passou a ser a principal acionista do grupo, com 24,6% das ações.

A família mineira controla uma rede de supermercados no leste de Minas Gerais, com faturamento anual de cerca de R$ 2 bilhões. O GPA registra faturamento superior a R$ 20 bilhões por ano.

Balanço indicou dificuldades financeiras

O balanço de 2025 já apontava problemas na situação financeira da companhia.

A empresa possui cerca de R$ 1,7 bilhão em dívidas com vencimento previsto para 2026. No último trimestre, o GPA registrou capital de giro líquido negativo em aproximadamente R$ 1,2 bilhão.

O endividamento total do grupo girava em torno de R$ 4 bilhões.

A companhia também informou a existência de cerca de R$ 16 bilhões em disputas tributárias classificadas como “perdas possíveis”. Esses valores não estão provisionados no balanço, mas representam risco financeiro potencial.

O GPA informou que divulgará nas próximas semanas mais detalhes sobre o plano de reestruturação e documentos do processo em seu site de relações com investidores.


Com informações da Folha de São Paulo*

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus