A pergunta que volta ao centro do debate é escrachada e direta: até onde vale a pena explorar petróleo na Amazônia brasileira? E, principalmente, quem ganha (e quem perde) com esse tipo de empreendimento?
Desde que os europeus (e Cia. Ltda.) desceram nossos rios, a Amazônia sempre tem um nome que fica em voga para ser travestido de “prosperidade”.
A nova fronteira da exploração está na chamada “Foz do Amazonas”, uma área marítima localizada na Margem Equatorial brasileira, entre o Amapá e o Pará. A região é considerada promissora por causa dos EROS (Elementos de Resposta a Óleo), estruturas e planos de emergência que indicam a capacidade de reação a possíveis vazamentos. Na prática, porém, a discussão vai além da tecnologia e outors assunto de avanços e progresso, envolve riscos ambientais em uma das áreas mais sensíveis e biodiversas do planeta.
A preocupação não é teórica ou academicista. No dia 18 de fevereiro de 2026, matéria veiculada pelo portal ClimaInfo trouxe um alerta baseado em um laudo técnico do IBAMA sobre o vazamento de cerca de 18 mil litros de fluido durante a perfuração do poço Morpho, no bloco FZA-M-59. O documento aponta que a alta viscosidade da substância pode fazer com que animais marinhos percam funções essenciais, como respirar e se alimentar, além de comprometer organismos fundamentais para toda a cadeia alimentar.
Mesmo em pequenos volumes, segundo o órgão ambiental, resíduos químicos persistentes podem causar efeitos tóxicos duradouros no ecossistema. O episódio reacendeu o alerta sobre a complexidade e os riscos da atividade petrolífera na região.
E é justamente aí que a história da Amazônia nos obriga a olhar para trás. Olhar para tantos feitos mirabolantes construidos na Amazônia.
Mais recentemente, esse vazamentos de óleo e acidentes industriais reforçam um padrão conhecido: a imperícia humana e a fragilidade dos controles ambientais ampliam riscos em um território onde qualquer dano se multiplica.
O problema é que, historicamente, a riqueza gerada não fica na região. O petróleo, a energia, os minérios e a madeira são arrendadas e vendidas para abastecer mercados nacionais e internacionais. Enquanto isso, quem vive na Amazônia enfrenta os efeitos: a pressão sobre territórios, as mudanças no modo de vida, os riscos à pesca, à água e à segurança alimentar, as secas e cheias cada vez mais além do que elas sempre foram. E mesmo assim, tudo continua como antes.
Mesmo antes de qualquer grande acidente, os impactos já começam com a movimentação econômica, a ocupação desordenada, o aumento de conflitos e a transformação do território. Para muitas comunidades, o custo ambiental e social chega primeiro, e os benefícios ficam naquela “placa enferrujada” de promessas.
Outro ponto que levanta dúvidas é a promessa de que os recursos da exploração vão financiar desenvolvimento regional ou transição energética. Experiências anteriores mostram que fundos e programas muitas vezes não alcançam quem mais precisa ou acabam sendo usados para finalidades distantes da realidade local. Exploração da Foz do Amazonas, transição energética? Faz sentido?
A discussão sobre a exploração na Foz do Amazonas não é apenas técnica ou econômica. Ela é, sobretudo, uma decisão sobre modelo de desenvolvimento. Afinal, depois de décadas de grandes projetos, a pergunta eterna que se repete, e de novo, e de novo e de novo. Vale a pena repetir a lógica de explorar a Amazônia para abastecer o mundo, enquanto a própria região continua lidando com os impactos, e esperando pelos benefíciose promessas eternas? Até quando?
Na Amazônia, cada decisão sobre o presente define o futuro. E para ontem!
Como a própria história mostra, quando o equilíbrio ambiental se rompe por aqui, o custo não é apenas regional, é global. Ou não?
Fonte: ClimaInfo (18/02/2026), IBAMA, Ministério Público Federal*
Por Tatiana Sobreira, coluna Soul do Norte.






