PF flagra suplente de Davi Alcolumbre sacando R$ 350 mil durante investigação sobre contratos do Dnit no Amapá

Relatório da Polícia Federal aponta retiradas em espécie superiores a R$ 3 milhões e suspeita de esquema de fraude em licitações da BR-156

A Polícia Federal registrou o momento em que o empresário Breno Chaves Pinto, segundo suplente do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), saiu de uma agência bancária com R$ 350 mil em espécie no Amapá. O episódio faz parte de relatório de monitoramento da investigação que apura fraudes em licitações do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) no estado.

Segundo o documento, obtido pelo jornal O Globo, os agentes passaram a acompanhar o empresário após alerta do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre saques considerados elevados. As retiradas ocorriam em datas próximas ao recebimento de recursos provenientes de contratos públicos, o que levantou suspeitas de lavagem de dinheiro.

De acordo com o relatório, Chaves Pinto chegou à agência bancária às 13h14 como passageiro de uma SUV branca. Ele entrou no local carregando uma mochila azul e permaneceu por cerca de 30 minutos. Após sair da agência, voltou ao veículo que o aguardava e seguiu para a sede de uma de suas empresas.

Suspeita de atuação em esquema de fraudes

A Polícia Federal investiga se o empresário integra uma organização criminosa que atuaria para fraudar licitações do Dnit no Amapá.

Segundo o inquérito, o suplente seria líder de um dos núcleos do grupo e teria influência dentro da superintendência regional do órgão.

De acordo com a investigação, ele exerceria “forte ingerência institucional no DNIT/AP, valendo-se de sua condição de suplente de senador da República para praticar, em tese, o crime de tráfico de influência”.

Relatórios financeiros da investigação apontam sucessivos saques em espécie que, somados, ultrapassam R$ 3 milhões nas contas de empresas ligadas ao empresário.

Veículo ligado a empresa de primos de Alcolumbre

Uma das retiradas monitoradas ocorreu em 7 de novembro de 2024, em uma agência bancária em Santana (AP), cidade a cerca de 20 quilômetros de Macapá.

Na ocasião, a Polícia Federal identificou que o carro que levou e aguardou Chaves Pinto em frente à agência estava registrado em nome da empresa Lojas 2A Ltda., que atua na venda de produtos importados em Macapá.

A empresa pertence a Alberto Brasil Alcolumbre e André Luiz Brasil Alcolumbre, primos de primeiro grau do senador Davi Alcolumbre.

Documentos obtidos pela investigação mostram que o veículo foi transferido oficialmente para o empresário apenas em julho de 2025, cerca de nove meses após o registro feito pela PF.

A transferência foi comunicada dois dias depois de Chaves Pinto ter sido alvo de buscas e apreensões durante a Operação Route-156.

André Alcolumbre afirmou que o veículo havia sido vendido ao empresário em 2022 e que a transferência não ocorreu no período por “erro material”. Pelo Código de Trânsito Brasileiro, o comprador tem prazo de até 30 dias para formalizar a transferência do veículo.

Apuração sobre contratos da BR-156

A investigação da Polícia Federal aponta a existência de uma organização voltada a fraudar licitações conduzidas pela superintendência do Dnit no Amapá.

Segundo decisão da Justiça Federal que autorizou a operação, foram identificadas trocas de mensagens e documentos sigilosos entre o superintendente do órgão e representantes de empresas antes da publicação dos editais.

Em uma conversa interceptada em 25 de outubro de 2023, o chefe do Dnit no estado agradece ao suplente de Alcolumbre pelo aumento de recursos enviados ao órgão. Na mensagem, ele atribui a liberação às “tratativas do nosso senador”.

Os investigadores também identificaram pedido para que o empresário solicitasse ao senador pressão política para liberação de empenhos e recursos.

Investigação começou em 2022

Breno Chaves Pinto já havia sido alvo de operação da Polícia Federal em dezembro de 2022. Na ocasião, agentes apreenderam cerca de R$ 800 mil em dinheiro na sede da empresa dele.

A investigação inicial apurava suspeita de fraude e superfaturamento em obras rodoviárias no Amapá. O inquérito também surgiu a partir de apuração sobre inserção de dados falsos no sistema do Ibama para movimentação de créditos florestais relacionados a madeira de origem ilegal.

A Polícia Federal identificou indícios de superfaturamento de R$ 6,1 milhões em obras executadas por empresa ligada ao suplente. Ele é investigado pelos crimes de organização criminosa, peculato, corrupção ativa e passiva, fraude em licitação, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

Em março de 2023, o empresário afirmou que a Justiça autorizou a devolução dos bens apreendidos e declarou que a irregularidade envolvendo madeira ocorreu por erro na compra do material. Ele também negou irregularidades nas contratações de suas empresas.

Contratos investigados somam R$ 60 milhões

As apurações indicam suspeitas de favorecimento de empresas em quatro licitações realizadas pelo Dnit no Amapá. Auditorias da Controladoria-Geral da União apontaram lentidão na execução das obras e possível desvio de recursos.

Os contratos investigados somam R$ 60,2 milhões e envolvem serviços de manutenção e recuperação de trechos da BR-156.

A rodovia é a principal ligação rodoviária do estado, com 823 quilômetros entre os municípios de Laranjal do Jari e Oiapoque.

Segundo a investigação, empresas investigadas teriam simulado concorrência em licitações para direcionar contratos.

Posicionamentos

Em nota, Breno Chaves Pinto afirmou que os saques em espécie se referem a pagamentos de funcionários e prestadores de serviço.

“O processo tramita sob segredo de Justiça, razão pela qual as manifestações da defesa ocorrem exclusivamente nos autos”, informou.

O senador Davi Alcolumbre declarou que não possui relação com a atuação empresarial de seu segundo suplente.

Procurado, o Dnit não se manifestou sobre os fatos. Em ocasião anterior, o órgão informou colaborar com as investigações e afirmou que suas instâncias de integridade apuram os acontecimentos.


Com informações do O Globo*

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus