Polícia divulga lista de foragidos em investigação sobre infiltração criminosa em órgãos públicos do AM

Autoridades afirmam que organização utilizava igrejas e cargos estratégicos como camuflagem

A Polícia Civil do Amazonas tornou públicas, neste sábado (21), as imagens de nove investigados considerados foragidos na Operação Erga Omnes. A ação apura a existência de um suposto “núcleo político” ligado à facção Comando Vermelho no estado, com ramificações dentro de órgãos públicos.

Entre os nomes apontados como foragidos estão Allan Kleber Bezerra Lima, indicado como liderança do grupo, e Núbia Rafaela Silva de Oliveira, ex-assessora parlamentar. Também são procurados Alexandre Braz Maia, Bismarque de Souza Pereira, Luana Ferreira Tavares, Messias Daniel da Silva Alves, Monique Kelly Galvão de Sousa, Pedro Igor Garcia Rodrigues e Pedro Sergio Saraiva Rocha Júnior.

De acordo com o delegado Marcelo Martins, as investigações revelaram que o grupo se valia de pessoas com atuação em setores estratégicos da administração pública para facilitar interesses da organização criminosa. “A investigação apontou o envolvimento de ex-assessores que atuavam na área da advocacia, bem como de servidores públicos lotados em setores estratégicos dos órgãos onde exerciam suas funções. Esses agentes eram utilizados para facilitar o trânsito da organização criminosa em diferentes instituições”, mencionou o delegado.

Ainda segundo a autoridade policial, Allan Kleber afirmava possuir contatos em diferentes repartições e dizia não temer eventual prisão por pagar vantagens indevidas. A declaração foi confirmada após perícia em um celular apreendido. “Ele ainda se apresentava como evangélico e atuava em uma igreja localizada no bairro Zumbi dos Palmares, Zona Leste de Manaus. A investigação constatou que igrejas evangélicas eram utilizadas como forma de camuflagem social, dificultando a identificação do grupo criminoso”, disse o delegado.

Como funcionava o esquema

As apurações indicam que a organização teria movimentado cerca de R$ 70 milhões desde 2018, com média anual estimada em R$ 9 milhões. O dinheiro estaria ligado ao tráfico de drogas articulado entre o Amazonas e outros estados.

Segundo a polícia, empresas de fachada nos setores de transporte e logística eram utilizadas para viabilizar a compra de entorpecentes na Colômbia. A droga seria enviada a Manaus e, posteriormente, redistribuída a outras unidades da federação.

Os investigados poderão responder por organização criminosa, associação para o tráfico, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e violação de sigilo funcional.

Prisões já efetuadas

Na sexta-feira (20), foram cumpridos 14 mandados de prisão, oito deles no Amazonas e seis em outros estados. Entre os detidos no estado estão:

  • Izaldir Moreno Barros – servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas, suspeito de repassar informações sigilosas de processos em segredo de Justiça mediante pagamento;

  • Adriana Almeida Lima – ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa do Amazonas, ligada a movimentações financeiras milionárias;

  • Anabela Cardoso Freitas – investigadora da Polícia Civil e integrante da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus, que também foi chefe de gabinete do prefeito David Almeida;

  • Alcir Queiroga Teixeira Júnior – apontado por participação no fluxo financeiro suspeito;

  • Josafá de Figueiredo Silva – ex-assessor parlamentar de vereador;

  • Osimar Vieira Nascimento – policial militar preso sob suspeita de envolvimento;

  • Bruno Renato Gatinho Araújo – incluído na lista de investigados;

  • Ronilson Xisto Jordão – preso em Itacoatiara.

Fora do Amazonas, Lucila Costa Meireles também foi detida. Conforme a investigação, ela já atuou como assessora parlamentar na Assembleia Legislativa e na Câmara Municipal de Manaus. A polícia afirma que Lucila se apresentava como advogada sem registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e exercia papel de lobista para o grupo. Mensagens analisadas indicam pagamento de propina a servidor do Judiciário para acesso a informações sigilosas.

As instituições citadas no caso prestaram seus posicionamentos oficiais ao site G1; Confira: 

  • O Tribunal de Justiça do Amazonas informou que adotou providências administrativas em relação ao servidor citado e reafirmou compromisso com a legalidade e a transparência.
  • A Universidade do Estado do Amazonas (UEA) declarou que não se responsabiliza por atos praticados por servidores fora do âmbito institucional. Sobre Adriana Almeida Lima, a instituição ressaltou que eventuais condutas fora do exercício acadêmico são de responsabilidade exclusiva da professora.
  • A Polícia Militar do Amazonas comunicou que o cabo preso responderá judicialmente e também a procedimentos internos já instaurados pela Diretoria de Justiça e Disciplina. A corporação afirmou colaborar com as investigações.
  • A Prefeitura de Manaus esclareceu que o município não é alvo da operação. Em nota, destacou que nem o prefeito David Almeida nem a estrutura administrativa integram a investigação e que eventuais servidores responderão individualmente.
  • A Câmara Municipal de Manaus orientou que questionamentos sejam encaminhados diretamente aos gabinetes onde os investigados atuaram.

Informações sobre o paradeiro dos foragidos podem ser repassadas de forma anônima pelos números 197 e (92) 3667-7575, da Polícia Civil, ou pelo 181, da Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM).

Por Victoria Medeiros, da Redação da Jovem Pan News Manaus

Foto: Mauro neto / Secom