Na Terra Indígena Igarapé Lourdes, em Rondônia, comunidades do povo Gavião voltaram a extrair látex de seringueiras nativas como estratégia de geração de renda associada à preservação ambiental. A atividade, conduzida por uma cooperativa indígena, busca ressignificar uma prática historicamente marcada por exploração e violência.
Professor e líder comunitário, José Palahv Gavião afirma que a iniciativa tem como foco valorizar os produtos da floresta e estimular a permanência dos jovens no território.
“Se a gente não colocar valor nos produtos da Amazônia, não vai demorar muito para ela desaparecer. Quando um coletor obtém renda com uma árvore, ele não vai querer derrubá-la”, disse.
O látex amazônico foi uma das principais commodities do país entre o século 19 e o início do século 20. Para o povo Gavião, no entanto, o período também ficou marcado por trabalho forçado e perda de autonomia. Após décadas de abandono da atividade tradicional, a retomada ocorreu em 2021, desta vez sob liderança indígena.
“Nossa comunidade já sofreu e foi escravizada pelas mãos dos seringueiros. Agora, nossa vida mudou: nós não dependemos mais só da caça e da pesca”, afirmou José Gavião.
A produção passou a ser comercializada por meio de parcerias com a Mercur e com a rede Origens Brasil, coordenada pelo Imaflora. O modelo prevê contratos de longo prazo, preços considerados mais justos e rastreabilidade dos produtos por meio de QR Code.
Segundo Jovani Machado da Silva, analista de vendas da Mercur, a empresa decidiu retomar a compra da borracha amazônica após revisar seus processos produtivos.
“A gente percebeu que precisava voltar alguns passos, resgatar esse processo e retomar a compra da borracha natural da Amazônia, de forma ecologicamente correta”, explicou.
Atualmente, a empresa desenvolve operações em terras indígenas de Rondônia inseridas no chamado Território Tupi Guaporé, com produção estimada em cerca de 30 toneladas métricas de látex por ano. O modelo adotado inclui o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), que remunera não apenas o produto, mas também a preservação da floresta.
Apesar dos avanços, o processo enfrenta desafios logísticos e produtivos. A coleta depende de ciclos naturais e o custo do látex nativo pode ser até três vezes maior que o de seringais plantados.
“Existe um desafio inicial: trabalhar no tempo dos povos da Amazônia. Eles têm o próprio ritmo, e a gente não quer interferir”, destacou Jovani.
Para as lideranças indígenas, a atividade também contribui para a vigilância do território, já que os coletores percorrem trilhas, observam indícios de desmatamento ilegal e coletam sementes e plantas medicinais.
“Nosso povo quer manter a floresta em pé. Eles querem explorar, mas com cuidado, sem agredir a floresta”, afirmou Heilton Gavião, liderança da TI Igarapé Lourdes.
Inserida em um movimento mais amplo de fortalecimento da bioeconomia amazônica, a retomada do látex tem atraído jovens da comunidade, que passaram a enxergar a atividade como alternativa econômica viável.
“Vendo os resultados, nesse último ano os jovens passaram a se interessar”, disse José Gavião.
Apesar de eventos climáticos recentes, como a seca, e da necessidade de investimentos para reabrir trilhas antigas, as lideranças veem continuidade no modelo.
“Em pé, a floresta traz mais qualidade de vida ao nosso povo. Nosso trabalho é garantir a vida das próximas gerações”, concluiu Heilton.
Com informações da Mongabay
Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus






