Quando os Andes mudam, a Amazônia sente

Nova pesquisa científica revela como a inversão ecológica nas montanhas pode redefinir o futuro das florestas tropicais da América do Sul

Sabemos que tudo na vida não muda de uma hora para outra, e assim também ocorre com as florestas. Elas avisam. Às vezes em silêncio, às vezes por meio de dados que só décadas de pesquisa conseguem revelar.

Um estudo recente, com dados de quase 40 anos de monitoramento de árvores, realizado por centenas de cientistas, mostra que a diversidade de espécies arbóreas não está estática. Ao contrário: ela tem se reorganizado em resposta a um clima que muda rapidamente. O trabalho foi publicado na Nature Ecology & Evolution e traz alertas importantes sobre as florestas dos Andes e da Amazônia, que passam por uma reorganização profunda, já afetando o equilíbrio ecológico de toda a região amazônica.

O que esse estudo representa para um futuro cenário das florestas no entorno da Amazônia brasileira?

O que os pesquisadores identificaram é uma espécie de inversão ecológica. Funciona assim: áreas que antes regulavam ambientes estáveis começam a perder diversidade e abundância, enquanto outras passam a atuar como refúgios climáticos. Esse reordenamento e redistribuição de espécies não é apenas um detalhe técnico. Estamos falando da redefinição do papel das florestas no armazenamento de carbono, no regime de chuvas e na própria sobrevivência da biodiversidade amazônica.

Embora, em termos continentais, o número total de espécies pareça relativamente estável, isso mascara mudanças importantes que ocorrem dentro da Amazônia profunda.

O que percebemos de imediato na pesquisa é que as florestas tropicais não respondem de forma uniforme às pressões climáticas. Temos sentido, de forma recorrente, secas prolongadas, temperaturas mais altas e alterações no regime de chuvas. Tudo isso funciona como uma reconfiguração não apenas dos ciclos da água, mas também de quais árvores estão presentes em cada área — o que impacta diretamente a qualidade do ar e a regulação hídrica.

Isso reforça que a Amazônia e os Andes estão entre as regiões mais sensíveis do planeta às mudanças climáticas, com impactos que podem reverberar muito além das fronteiras da floresta.

Esse trabalho se soma a outras pesquisas sobre o tema que já vinham apontando sinais preocupantes. Estudos anteriores, incluindo publicações em revistas científicas, mostram tendências de redução das chuvas, aumento das temperaturas e indicam que a Amazônia pode perder sua capacidade de funcionar como um enorme reservatório de carbono e água.

O estudo é fruto de uma ampla colaboração internacional, envolvendo mais de 160 pesquisadores de 20 países, com apoio de grandes coletivos de pesquisa, como RAINFOR, Red de Bosques Andinos, Projeto Madidi e a rede PPBio. Pelo INPA, assinam o trabalho pesquisadores como Flávia Costa, Carolina Castilho, Juliana Schietti, José Luis Camargo, Philip Fearnside, entre outros.

Nesse cenário, é impossível ignorar o papel do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). A instituição, localizada no coração da cidade de Manaus, integra uma ampla rede internacional de cientistas que há quase 40 anos monitora parcelas permanentes de floresta na Amazônia e na região andino-amazônica. São dados coletados com rigor ao longo de gerações, que hoje permitem entender o que antes era apenas uma suspeita: a floresta está mudando por dentro.

Juntas, essas evidências desenham um futuro que exige mais do que discursos. Exige mais ciência, mais cooperação, políticas públicas guiadas por dados e participação social ativa, com práticas educativas comprometidas com o presente e o futuro das populações locais.

Talvez o maior ensinamento desse estudo seja simples, o que de que a Amazônia responde ao que acontece ao seu redor, então: O que estamos fazendo de fato?

Quando os Andes mudam, quando o clima se altera, quando a pressão humana se intensifica, a floresta sente. E o que ela sente, cedo ou tarde, retorna para todos nós.

O artigo foi intitulado como Tree Diversity is Changing Across Tropical Andean and Amazonian Forests in Response to Global Change, está disponível  Clique aqui pesquisa

Fonte: ascom INPA*

Por Tatiana Sobreira, Coluna Soul do Norte