No Amazonas, a crise da saúde mental apresenta características agravadas por fatores como dimensão territorial, isolamento geográfico, desigualdade social, pobreza estrutural, fragilidade institucional e dificuldade de acesso aos serviços públicos. Esse conjunto contribui para a invisibilização do sofrimento psíquico, especialmente em comunidades ribeirinhas, zonas rurais, territórios periféricos e áreas de ocupação urbana desordenada.
Nesses contextos, crianças e adolescentes crescem em ambientes marcados por violência doméstica, abandono escolar, trabalho infantil, abuso físico e psicológico, negligência emocional e ausência de políticas públicas continuadas. O sofrimento mental, muitas vezes, deixa de ser reconhecido como problema de saúde e passa a ser tratado como parte da rotina.
A psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan destaca o papel do ambiente familiar na formação emocional.
“Regulação emocional, comportamentos compulsivos e violentos vem dentro de casa. A educação parental é muito importante, porque as crianças mimetizam o comportamento dos pais”, disse a psicóloga.
Segundo a especialista, ambientes familiares desestruturados impactam diretamente o desenvolvimento psíquico. A ausência de diálogo, a comunicação conflituosa, o isolamento social e a falta de convivência com outras crianças favorecem comportamentos agressivos, dificuldades de socialização e desregulação emocional.
Esse processo contribui para a formação de uma geração emocionalmente fragilizada, com baixa capacidade de elaboração de conflitos, fragilidade de vínculos afetivos e ausência de redes de proteção. O sofrimento psíquico se manifesta, nesses casos, em violência, evasão escolar, uso de drogas, exploração, criminalização precoce e exclusão social.
A psicóloga também aponta mudanças no padrão de socialização das novas gerações.
“Os adolescentes hoje convivem muito mais dentro de casa e no online do que fora. Eles constroem relações afetivas, vínculos e identidade nas redes sociais”, destacou.
Nesse cenário, os serviços de saúde mental enfrentam dificuldades para alcançar populações vulneráveis. A concentração de atendimentos nos grandes centros urbanos amplia a distância entre quem precisa de cuidado e quem consegue acessá-lo. Comunidades isoladas permanecem fora da cobertura efetiva, enquanto as estruturas existentes operam em regime de sobrecarga.
Os equipamentos de atenção psicossocial são insuficientes para atender à demanda. Falta capilaridade territorial, equipes multiprofissionais em número adequado, políticas integradas e estratégias contínuas de cuidado comunitário. O modelo vigente prioriza, em muitos casos, a contenção de crises, em detrimento da prevenção.
Thaís ressalta a importância de olhar para o indivíduo no processo de cuidado.
“É preciso entender o que é o comportamento do seu filho. Não comparar com outras crianças. Ver o indivíduo”, enfatizou Thaís.
A saúde mental, nesse contexto, deixa de ser apenas um campo clínico e passa a ser compreendida como um problema estrutural. Ela se relaciona diretamente com educação, assistência social, moradia, segurança pública e políticas de infância.
Nos últimos anos, houve iniciativas de ampliação e reorganização de serviços no estado, com reestruturação de unidades, expansão da capacidade instalada e implementação de alguns modelos de cuidado comunitário. Apesar disso, os desafios permanecem.
O debate atual aponta para a necessidade de um modelo humanizado, territorializado, contínuo e integrado à vida das comunidades. Embora a lógica manicomial tenha sido formalmente superada, a rede comunitária ainda não se consolidou de forma suficiente para garantir acompanhamento longitudinal e atuação intersetorial.
Na infância e adolescência, o aumento de diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista, amplia a demanda por serviços especializados, equipes qualificadas e políticas públicas de longo prazo.
A psicóloga defende a importância da intervenção precoce. “O papel da terapia não é tapar buraco. É ajudar na regulação emocional e no controle de comportamentos.”
Ela também destaca a relevância do sentimento de pertencimento entre jovens. “Crianças e adolescentes querem ser amados e acolhidos. Muitas vezes entram em grupos que não são saudáveis porque oferecem pertencimento.”
Nesse processo, a prevenção começa no ambiente familiar. “É preciso olhar para si e entender que exemplo você está sendo para o seu filho.”
Como resposta, começam a surgir modelos multiprofissionais centrados no paciente e na família, integrando psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicopedagogia, assistência social e medicina. Essas iniciativas adotam planos terapêuticos individualizados, acompanhamento contínuo e participação ativa da família.
Essas experiências indicam que a saúde mental não se constrói apenas em hospitais ou centros especializados, mas também no cotidiano, nos vínculos, na escuta e na presença institucional.
O principal desafio no Amazonas é estruturar uma rede viva de cuidado, capaz de atravessar territórios, alcançar populações invisibilizadas e sustentar processos terapêuticos ao longo do tempo.
A reconstrução da política de saúde mental exige integração entre áreas, continuidade institucional, investimento estrutural, formação profissional e fortalecimento das redes comunitárias. Sem isso, o ciclo de exclusão, sofrimento, violência, abandono, criminalização e invisibilidade tende a se perpetuar.
Romper esse ciclo depende não apenas do sistema de saúde, mas de um compromisso coletivo e de um projeto de sociedade.
Por Haliandro Furtado e Ismael Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus






