Um estudo inédito sobre a economia do patrimônio cultural brasileiro revela um descompasso entre o tempo dedicado à cultura e o retorno financeiro obtido por quem atua diretamente na preservação desses bens. Dados preliminares do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) mostram que, embora 46% dos agentes culturais trabalhem mais de 40 horas por semana com o patrimônio, apenas 27% conseguem sobreviver exclusivamente dessa atividade.
As informações fazem parte da Pesquisa Patrimônio Cultural, Economia e Sustentabilidade, realizada em parceria com o Observatório da Economia Criativa da Bahia (Obec-BA). Entre abril e outubro de 2025, foram feitas 182 entrevistas em seis cidades brasileiras, envolvendo agentes ligados a bens culturais materiais e imateriais reconhecidos como Patrimônio Mundial e da Humanidade pela Unesco.
Nesta fase, o estudo analisou o Centro Histórico de Salvador (BA), o Círio de Nazaré (PA), o Complexo Cultural do Bumba-meu-Boi (MA), o Centro Histórico de São Luís (MA), a Praça São Francisco, em São Cristóvão (SE), e o Samba de Roda (BA). O levantamento integra um panorama mais amplo de 12 bens culturais distribuídos pelo país.
Segundo os dados, 84% dos agentes que não vivem exclusivamente do patrimônio gostariam de se dedicar integralmente à atividade, e 96% acreditam que essa dedicação exclusiva seria decisiva para a preservação dos bens culturais. Ainda assim, 41% relataram já ter enfrentado prejuízos financeiros ou dívidas ao longo da trajetória para manter a cultura ativa.
Para a chefe do Serviço de Sustentabilidade Econômica do Patrimônio do Iphan, Martina Ahlert, os resultados ajudam a mudar a forma como o patrimônio é percebido.
“Para muitos gestores, detentores e pesquisadores, a relação direta entre economia e patrimônio cultural não era evidente. As devolutivas da pesquisa funcionaram como um catalisador para mostrar que discutir a dimensão econômica é fundamental para a continuidade cultural”, afirmou.
Dedicação alta, renda irregular
O estudo aponta que 50% dos entrevistados obtêm do patrimônio menos da metade da renda anual. Entre os que não vivem exclusivamente dessa atividade, 87,2% precisam manter outros trabalhos, acumulando jornadas duplas ou até triplas. A informalidade segue predominante: embora metade tenha algum tipo de formalização, 35% atuam de forma informal contínua e 9% de maneira esporádica, sem proteção social.
Para a professora da Universidade Federal do Pará, Idanise Hamoy, não há como dissociar preservação e retorno econômico.
“Se a pessoa não tiver nenhum benefício com o patrimônio, ele não será preservado. Se as pessoas não enxergarem que serão beneficiadas de alguma forma, elas não vão nem visitá-lo, nem conhecê-lo. Ele simplesmente desaparece”, afirmou.
Cultura movimenta economia, mas agentes ficam à margem
No Maranhão, o assessor da Fundação Municipal do Patrimônio Histórico de São Luís, Rafael Arrelaro, destacou que manifestações culturais movimentam cadeias inteiras da economia local, mas nem sempre esse valor retorna para os grupos que sustentam a tradição.
“Se não tiver Bumba-meu-Boi, não tem hotel, não tem passagem aérea, não tem táxi, não tem comércio informal. Não tem São João. É importante que os grupos também tenham consciência do seu lugar dentro desse ciclo econômico”, disse.
De acordo com o levantamento, 64% dos entrevistados apontam a sustentabilidade econômica como o maior risco à continuidade dos bens culturais. Entre os apoios considerados mais importantes estão benefícios sociais ou complementação de renda para mestres e detentores (45%), lançamento de editais públicos (32%) e aposentadoria específica para agentes do patrimônio (31%).
A pesquisa organiza os dados em quatro eixos: perfil dos agentes culturais; trabalho e renda; organização produtiva; e fomento institucional. Segundo o Iphan, trata-se da primeira análise sistemática sobre como funciona a economia do patrimônio cultural brasileiro.
A divulgação do relatório completo da primeira etapa está prevista para fevereiro. Os dados e publicações da pesquisa estão disponíveis em plataforma digital mantida pelo Iphan.
Com Informações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus






