Petrobras confirma vazamento em poço no Amapá e reforça segurança na exploração da Foz do Amazonas

Justiça ambiental, Ibama e governo brasileiro entram no centro da discussão após licença para perfuração e críticas de especialistas e ambientalistas

A confirmação de um vazamento de fluido de perfuração no poço Morpho, operado pela Petrobras na costa do Amapá, reacendeu o debate nacional e internacional sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, uma das regiões mais sensíveis do ponto de vista ambiental no planeta. Embora a estatal afirme que o incidente foi pontual, contido e sem risco ambiental, ambientalistas e especialistas voltaram a questionar a liberação da atividade pelo governo brasileiro e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

O que vazou e o que diz a Petrobras

Em nota oficial, divulgada na matéria do O Globo, a Petrobras confirmou o vazamento de fluido de perfuração, substância utilizada para lubrificar e estabilizar o poço durante a perfuração. Segundo a empresa, o material é biodegradável, aprovado pelos órgãos reguladores e não entrou em contato com o meio marinho, tendo sido totalmente contido ainda na estrutura da sonda.

“A Petrobras esclarece que o vazamento foi prontamente identificado e controlado, sem qualquer impacto ambiental. O fluido utilizado é de baixo impacto e atende aos mais rigorosos padrões internacionais”, informou a estatal em comunicado divulgado à imprensa.

A companhia também afirmou que comunicou o Ibama imediatamente, conforme exigem os protocolos ambientais, e que segue monitorando a área.

Licença concedida em meio a controvérsias

O Ibama concedeu a licença para a perfuração do poço Morpho em 20 de outubro, após uma longa disputa técnica e política. A autorização ocorreu depois de revisões nos planos de emergência da Petrobras, incluindo a apresentação de um Plano de Proteção à Fauna e de resposta rápida a eventuais vazamentos de óleo.

A decisão, no entanto, foi criticada por organizações ambientais como Greenpeace Brasil, WWF-Brasil e pelo Observatório do Clima, que alertam para os riscos da atividade em uma região de recifes profundos recém-descobertos, manguezais, rotas migratórias de peixes e áreas estratégicas para comunidades tradicionais e povos indígenas.

Relatórios técnicos contrários à exploração

Diversos documentos técnicos embasaram as críticas à exploração na Foz do Amazonas. Entre eles:

  • Pareceres técnicos internos do próprio Ibama, tornados públicos em fases anteriores do licenciamento, que apontaram fragilidades nos planos de emergência e dificuldade de resposta rápida em caso de vazamento de grandes proporções;

  • Estudos científicos publicados na revista Science Advances e em relatórios do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que destacam a singularidade dos ecossistemas marinhos influenciados pelo Rio Amazonas;

  • Relatórios do Painel Científico para a Amazônia, que alertam que um acidente na região poderia ter impactos transfronteiriços, atingindo o litoral das Guianas e o Caribe.

Segundo esses estudos, a combinação de correntes marítimas intensas, profundidade elevada e distância da costa tornaria a contenção de um grande vazamento extremamente complexa.

Por que o governo brasileiro liberou a exploração

O governo federal sustenta que a liberação faz parte de uma estratégia de segurança energética, transição gradual e fortalecimento da Petrobras como empresa integrada de energia.

O Ministério de Minas e Energia argumenta que a exploração na Margem Equatorial — que inclui a Foz do Amazonas — pode revelar reservas semelhantes às encontradas na Guiana e no Suriname, consideradas promissoras.

Autoridades também afirmam que os recursos oriundos do petróleo podem financiar políticas públicas, inclusive projetos de transição energética, desde que a exploração ocorra sob rígidos critérios ambientais.

O presidente do Ibama, por sua vez, declarou em entrevistas que a licença concedida não é irrestrita e pode ser revista caso qualquer condicionante seja descumprida.

Repercussão e pressão internacional

A liberação e o vazamento foram repercutidos por veículos internacionais como Reuters, The Guardian e El País, que destacaram a contradição entre o discurso ambiental do Brasil em fóruns climáticos e a ampliação da fronteira petrolífera na Amazônia Azul.

Ambientalistas afirmam que o episódio do poço Morpho, mesmo sem danos comprovados, reforça a necessidade de princípio da precaução em uma região considerada estratégica para o equilíbrio climático global.

O que acontece agora

O Ibama segue analisando os relatórios enviados pela Petrobras sobre o incidente, enquanto organizações da sociedade civil estudam medidas administrativas e judiciais para tentar suspender novas perfurações. A Petrobras, por sua vez, afirma que continuará cumprindo todas as exigências legais e que a perfuração tem caráter exploratório, sem garantia de produção comercial.

O caso coloca novamente no centro do debate a pergunta que divide governo, indústria e ambientalistas: é possível expandir a exploração de petróleo na Foz do Amazonas sem colocar em risco um dos ecossistemas mais sensíveis do planeta?

Fonte: O Globo, CNN, G1*

Por Tatiana Sobreira, da redação da Jovem Pan News Manaus