A violência contra a mulher segue sendo um dos principais desafios de segurança pública no Brasil e também no Amazonas. Dados recentes apontam que os registros desse tipo de crime continuam crescendo, inclusive no ambiente virtual, onde a violência psicológica tem se intensificado.
Levantamento recente aponta que mais de 3.400 mulheres foram vítimas de violência psicológica na internet em 2025, um aumento superior a 20% em relação ao ano anterior. No total, somando também ocorrências presenciais, quase 60 mil mulheres sofreram esse tipo de violência no último ano, o maior número da série histórica.
No Amazonas, os registros também preocupam. O número de eventos de violência contra a mulher praticamente dobrou entre 2024 e 2025, saltando de 604 para 1.023 casos, segundo dados analisados por especialistas em segurança pública.
Em entrevista exclusiva ao programa Minuto a Minuto, da Jovem Pan News Manaus, a delegada Débora Mafra, referência no combate à violência doméstica, destacou que a violência contra a mulher ainda é um problema estrutural da sociedade.
Muitas pessoas pensam que a violência doméstica é um problema do casal, algo privado. Mas não é. É um problema de toda a sociedade. Ninguém quer ver sua filha sofrendo violência na mão de alguém”, afirmou.
Segundo a delegada, a violência dentro de casa ainda é uma das mais difíceis de combater justamente por ser silenciosa e, muitas vezes, não denunciada.
A violência doméstica é imensa dentro de casa, mas existe muita subnotificação. A segurança pública não consegue ajudar se a vítima não denunciar”, explicou.
Ameaça é o crime mais comum
Durante a entrevista, Débora Mafra também destacou que o crime mais recorrente registrado nas delegacias especializadas é o de ameaça, considerado uma forma de violência psicológica.
A ameaça é o crime que mais aparece na Delegacia da Mulher. É um crime fácil de cometer, porque muitas vezes ele acontece apenas com palavras”, explicou.
De acordo com a delegada, a ameaça geralmente acompanha outros tipos de agressão.
O agressor xinga, ameaça, agride e continua ameaçando. A violência moral, psicológica e física acabam acontecendo juntas. Em cerca de 98% dos registros existe o crime de ameaça”, afirmou.
Falta de denúncia ainda é um desafio
Outro ponto que chama atenção, segundo a delegada, é que a maioria das mulheres vítimas de feminicídio nunca chegou a procurar ajuda.
Estudos mostram que cerca de 98% das mulheres que morreram em feminicídio nunca denunciaram seus agressores”, disse.
Dados mais recentes também indicam que apenas 13% das vítimas tinham medida protetiva de urgência.
Para Mafra, a medida protetiva é uma ferramenta importante para impedir a escalada da violência.
Muita gente pergunta se um papel vai salvar uma mulher. Não é apenas um papel, é um ato judicial. Se o agressor descumpre, ele pode ser preso”, destacou.
Segundo ela, grande parte das prisões relacionadas à violência doméstica acontece justamente por descumprimento dessas medidas.
Dependência emocional e financeira
A delegada também explicou que muitos fatores impedem a mulher de denunciar o agressor, entre eles o vínculo emocional, a dependência financeira e o medo.
O primeiro fator é emocional. Muitas mulheres ainda gostam do agressor e acreditam que ele vai voltar a ser aquele companheiro do início do relacionamento”, disse.
O aspecto econômico também pesa.
Muitas mulheres pararam de trabalhar ou estudar para cuidar da família e acabam dependentes financeiramente do agressor. Isso dificulta a decisão de sair de casa”, explicou.
Além disso, as ameaças feitas pelo agressor também influenciam no silêncio da vítima.
Ela acredita que as ameaças podem realmente acontecer e passa a viver com medo”, acrescentou.
Educação é caminho para mudança
Para a delegada, o combate à violência contra a mulher passa também por mudanças culturais e pela educação desde a infância.
Nós temos leis importantes, como a Lei Maria da Penha e a lei do feminicídio. Mas o que realmente muda a sociedade é a educação”, afirmou.
Segundo Mafra, é fundamental ensinar desde cedo o respeito entre homens e mulheres.
Precisamos ensinar aos meninos a respeitar as mulheres e às meninas que elas não devem aceitar nenhum tipo de violência”, disse.
Ela acredita que a conscientização nas escolas pode transformar a realidade ao longo do tempo.
Se começarmos hoje um trabalho forte nas escolas e dentro das famílias, em dez anos vamos ver uma redução significativa da violência doméstica”, avaliou.
Denúncia pode salvar vidas
Ao final da entrevista, a delegada reforçou que buscar ajuda é essencial para quebrar o ciclo de violência.
Não aceite nenhum tipo de violência. Denuncie o quanto antes. Ligue para o 190 ou para o 180. Mudar essa história é possível, e a mulher precisa ser protagonista da própria vida”, concluiu.
Por Ismael Oliveira – Redação Jovem Pan News Manaus






