Zonas úmidas da Amazônia: pesquisas do INPA alertam para impactos de barragens e secas extremas

Estudos de longa duração mostram como a alteração do pulso das águas ameaça a biodiversidade, o clima e a vida de quem depende das florestas alagáveis

Na Amazônia, a ciência sempre existiu antes mesmo de receber esse nome. Recordo que, ao me aproximar do INPA, cobrindo eventos, realizando reportagens pontuais, programas ao vivo ou mesmo em visitas ocasionais, sempre ouvi histórias sobre um senhor detentor de um conhecimento ancestral profundo sobre as plantas, árvores, o solo e os frutos da floresta. Conta-se que foi ele um dos responsáveis por repassar, nos primeiros anos do Instituto, os saberes da Amazônia.

Se essa narrativa é realidade ou não, o fato é que o conhecimento dos povos originários e ribeirinhos permanece vivo no cotidiano amazônico. Ele atravessa gerações como forma de preservar a memória, a identidade e a importância da manutenção do saber sobre o Norte do Brasil.

A ciência pesquisada aqui também mora no ritmo das águas, no tempo da cheia e da vazante, no conhecimento transmitido de pais para filhos, no cuidado com a floresta e na maneira como a vida se organiza ao redor dos rios. O que muda ao longo dos anos é a forma como esse conhecimento é compartilhado, e quem consegue, de fato, ter acesso a ele.

Quando o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) amplia sua comunicação com a sociedade, promove encontros, divulga pesquisas se aproxima das pessoas e algo essencial acontece: a ciência passa a fazer parte da vida real e desperta outras vontades e sonhos e às escolhas que fazemos todos os dias.

Falar sobre Amazônia e zonas úmidas (divulgação pelo INPA)

Essa aproximação é ainda mais necessária quando falamos das zonas úmidas amazônicas, tema que ganha destaque no Dia Mundial das Zonas Úmidas, celebrado em 2 de fevereiro. Mais do que uma data simbólica, o dia serve como alerta sobre a importância desses ecossistemaspara o equilíbrio ambiental, climático e social da Amazônia brasileira. Pesquisas conduzidas pelo Grupo de Pesquisa em Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (GP-MAUA), vinculado ao INPA/MCTI, revelam como alterações no pulso natural de inundação,  seja por barragens, secas extremas ou ações humanas, impactam diretamente a biodiversidade, a biomassa florestal e a capacidade de recuperação desses ambientes.

As áreas úmidas amazônicas,  como várzeas, igapós, buritizais, baixios e campinaranas, ocupam cerca de 2,3 milhões de quilômetros quadrados da Bacia Amazônica. São territórios que vivem na fronteira entre a terra e a água e sustentam uma biodiversidade única, além de serem fundamentais para o modo de vida de populações indígenas, ribeirinhas e tradicionais.

Segundo o pesquisador do INPA e coordenador do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD-MAUA), Jochen Schöngart, esses ecossistemas exercem funções essenciais. Além de armazenar e sequestrar carbono, as áreas úmidas abrigam espécies adaptadas a regimes específicos de inundação e ajudam a mitigar os impactos de cheias e secas extremas, que vêm se intensificando nas últimas décadas. Essas mudanças já afetam diretamente municípios amazônicos e até a capital, Manaus.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa interferência é a Hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã. O represamento ocorrido entre 1987 e 1989 extinguiu o pulso natural de inundação a jusante da barragem, provocando uma seca artificial que levou à morte de grande parte da floresta de igapó. Estudos recentes publicados na revista Forest Ecology and Management mostram que os impactos dessa intervenção ainda são sentidos quarenta anos depois, com redução significativa da diversidade de espécies e mudanças profundas na composição da vegetação, detectadas até 120 quilômetros rio abaixo.

A pesquisadora Carla Iara Dantas, colaboradora do GP-MAUA, explica que as áreas próximas à barragem passaram a ser dominadas por espécies indicadoras de distúrbio, com crescimento rápido, menor longevidade e baixa capacidade de estocar biomassa. Na prática, isso revela o quanto os igapós são frágeis e como têm dificuldade para voltar ao equilíbrio depois de intervenções de grande porte.

Outro estudo de longa duração conduzido pelo PELD-MAUA analisou a recuperação de florestas de igapó após incêndios no Parque Nacional do Jaú, associados a eventos de seca extrema e fenômenos como o El Niño. A pesquisa mostrou que um único evento de fogo pode eliminar entre 80% e 90% das árvores desses ambientes. Mesmo após quase quatro décadas, a floresta recuperou apenas 16% da biomassa original e cerca de 50% da diversidade de espécies.

 

 

Como explica o pesquisador Gildo Vieira Feitoza, o fogo não é um elemento natural da floresta amazônica.

Ele depende de um agente externo, quase sempre humano, e encontra nas secas extremas um ambiente ainda mais vulnerável, com grande acúmulo de material seco que facilita a propagação das chamas.

 

Popularizar o conhecimento

Essas pesquisas deixam claro que falar de Amazônia hoje é falar de ciência aplicada ao território, de decisões que precisam considerar impactos de longo prazo e, sobretudo, de comunicação e de proximidade. Quando esses dados chegam ao público, deixam de ser apenas números e passam a ser consciência coletiva e oportunidades. Popularizar a ciência é um ato político, ambiental e social. É um ato de amor. É permitir que as pessoas compreendam por que a floresta importa, como ela funciona e o que se perde quando seus ciclos naturais são interrompidos. Amazônia não pode ser apenas observada à distância. Ela precisa ser entendida, respeitada e defendida a partir do conhecimento e do saber ancestral. Quando a ciência se aproxima das pessoas, a floresta ganha aliados. E o Norte inteiro se reconhece como protagonista de um futuro que precisa ser construído com informação, sensibilidade e responsabilidade.

As informações e fotos da pesquisa: Ascom INPA*

Por Tatiana Sobreira, coluna Soul do Norte