Para quem mora em Manaus ou no interior do Amazonas, essa época do ano traz um ritual que se repete e que é esperado com alegria por todos. No nosso inverno amazônico, basta passar por uma feira, uma esquina ou a porta de casa para se deparar com uma explosão de cores e sabores. Os tons passeiam entre o amarelo, o laranja e o vermelho vivo, cores que anunciam fartura e a generosidade da nossa Amazônia.
É quando os cachos pesados aparecem, generosos, e os frutos são debulhados com cuidado antes de irem para a panela com água e sal. Pouco depois, o cheiro toma conta de todos, sentados à mesa ou passeando pela cozinha. Antes mesmo da primeira mordida, o paladar já é provocado, a memória desperta, e a fome vem acompanhada de afeto.
Estou falando da pupunha, uma das grandes rainhas dessa estação. Servida simples, acompanhada de um café quentinho, ela atravessa manhãs, tardes e noites. Mais do que alimento, a pupunha carrega histórias. Cada sabor conecta lembranças, remete a uma Amazônia chuvosa, viva, com o cheiro do mato, da roupa molhada que teima em não secar, a lembrança que mora na infância, nas casas de quintal largo, nas margens dos rios e nas mesas compartilhadas com quem entra casa adentro.
É nesse encontro entre comida e memória que a floresta também se faz presente no prato.
Enquanto a pupunha segue sendo presença garantida nas mesas do Amazonas, a ciência também volta seus olhos para esse alimento tão cotidiano quanto potente. O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) realizou recentemente uma degustação de progênies de pupunheira com o objetivo de compreender as preferências do mercado consumidor e ampliar o conhecimento sobre as variedades do fruto.
A iniciativa permitiu que pesquisadores avaliassem características como sabor, textura, coloração e aceitação da pupunha, aproximando o conhecimento científico daquilo que o povo amazônida já conhece há gerações: a riqueza desse alimento simples, nutritivo e profundamente ligado à cultura regional.
A ação do INPA abre espaço para que a pupunha seja vista não apenas como tradição, mas também como uma oportunidade de inovação alimentar, valorização da agricultura regional e fortalecimento da segurança alimentar na Amazônia.

A força nutricional da pupunha
A pupunha é um alimento energético, rico em carboidratos complexos, fibras, proteínas vegetais, carotenoides, vitamina A, potássio e gorduras saudáveis. Essa composição faz dela uma aliada importante na dieta do Norte do Brasil, especialmente em regiões onde o acesso a outros tipos de proteína pode variar conforme o período do ano.
Consumida cozida, em preparações regionais ou combinada com outros alimentos da floresta, a pupunha contribui para a saciedade, fornece energia e ajuda a manter uma alimentação equilibrada.
Cada fruta no seu tempo: a Amazônia ensina sobre sazonalidade no prato. O alimento segue o ritmo das águas. O inverno e o verão amazônico determinam quais frutas estarão disponíveis em abundância. Açaí, buriti, tucumã, cupuaçu, taperebá, bacaba, camu-camu, murici e pupunha surgem em épocas diferentes, garantindo diversidade nutricional ao longo do ano.
Qual é a fruta mais rica da Amazônia?
Do ponto de vista científico, o camu-camu se destaca como uma das frutas com maior concentração de vitamina C do mundo. O buriti é referência em vitamina A, enquanto o açaí concentra energia e antioxidantes. A pupunha, por sua vez, se consolida como um alimento completo, especialmente quando associada a pesquisas como as conduzidas pelo INPA, que ampliam seu potencial de uso na gastronomia e na indústria de alimentos.
Valorizar a gastronomia amazônica é valorizar a própria floresta contada por todos que vai além do que se ver. Quando ingredientes locais são respeitados em sua origem, preparo e significado, eles se tornam aliados da saúde, da economia regional e da preservação cultural.
A pupunha no café da manhã, acompanhada de café é mais do que um hábito alimentar, é um gesto de pertencimento. Um convite para sentar à mesa e reconhecer que a Amazônia também se revela para além do paladar.
Imagens feita por IA
Por Tatiana Sobreira, coluna Soul do Norte*






