A campanha “Eu Tenho Pai”, promovida pela Defensoria Pública do Estado do Amazonas, realizou neste sábado (28), em Manaus, mais de 600 atendimentos voltados ao reconhecimento de parentalidade biológica e socioafetiva.
A ação ocorreu na sede administrativa da instituição, após agendamentos feitos nas semanas anteriores, com oferta gratuita de exames de DNA e orientação jurídica para reconhecimento voluntário ou investigação de paternidade.
Entre os atendidos está Gleisi de Souza Silva, de 42 anos, que realizou exame para confirmar possível vínculo biológico com Geraldo Gripena Noronha Sobrinho, de 64 anos.
“Quando eu completei 15 anos, a minha mãe biológica se reaproximou de mim e perguntou se eu não queria conhecer meu pai. Eu disse que sim e aí ela foi e me levou até ele”, relatou.
Geraldo também recordou o primeiro contato. “A mãe dela chegou numa tarde, sentou na mesa comigo e falou ‘eu tenho uma pessoa para te apresentar’. E disse ‘essa é sua filha’. Começamos a conversar e ela passou a conviver com a gente.”
Segundo ele, o resultado do exame não altera a relação construída ao longo dos anos. “São muitos anos de convivência e afeto. Já somos pai e filha. Oficializar isso vai ser positivo.”
Reconhecimento socioafetivo também integra atendimentos
O mutirão também contemplou casos de maternidade socioafetiva. Eline da Silva Souza buscou o reconhecimento legal do vínculo com Benjamin, filho biológico do companheiro Edilson Braga Júnior.
“Cuido dele desde bebezinho. Fui buscá-lo no hospital quando nasceu. Ele é o nosso grude”, afirmou Eline.
Edilson explicou que a ausência do registro causa dificuldades no cotidiano. “Às vezes precisa ir ao médico e ela leva a certidão. Ficamos preocupados de alguma autoridade questionar porque o nome dela não consta no registro.”
Outro atendimento foi o de Andréli Castro e Damião Souza Castro, que realizaram exame para esclarecer possível vínculo biológico.
“Queria saber se eu sou filha dele. Preciso tirar essa dúvida e agora é a hora da verdade”, disse Andréli.
Damião destacou que o resultado não interfere na convivência familiar. “A gente já tem essa relação afetiva. O exame é só para saber se realmente existe o vínculo de sangue.”
Mudança de registro civil exige comprovação
Suzi e Victor também participaram da ação para regularizar o registro da filha Maria Eduarda. A criança foi registrada anteriormente pelo ex-companheiro da mãe, e o casal busca agora o reconhecimento do pai biológico.
“Vi na televisão que ia ter o mutirão, agendei e viemos resolver isso”, afirmou Victor. “Vamos fazer o teste apenas para registrá-la com meu sobrenome.”
Suzi avaliou o atendimento recebido. “O atendimento foi rápido. Fomos bem atendidos desde a entrada até a realização do exame.”
Dados apontam ausência paterna acima da média nacional
Dados do Portal da Transparência da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais mostram que, entre 2016 e 2025, o Brasil registrou 27,1 milhões de nascimentos, sendo 1,6 milhão sem o nome do pai na certidão.
No Amazonas, foram 693.683 registros no período, com 66.240 casos de ausência paterna, equivalente a 9,5% do total.
Somente em 2025, o estado contabilizou 82.671 nascimentos, dos quais 8.200 ocorreram sem o nome do pai, cerca de 10%. A média nacional no mesmo período foi de 7%.
A defensora pública Sarah Lobo, coordenadora da Área de Família e da campanha, destacou a relevância da iniciativa.
“Esse tipo de campanha leva ao debate público a importância do reconhecimento da paternidade. O Amazonas tem número acima da média nacional, e isso gera diversas consequências legais”, afirmou.
Segundo ela, a ausência do registro paterno representa um problema social e familiar. “O mutirão visa justamente contribuir para a redução dessas estatísticas.”
Mobilização alcança capital e interior
Para a edição de 2026, foram abertas 870 vagas, sendo 620 destinadas à capital e 250 ao interior do estado.
Em Manaus, os atendimentos começaram no dia 24 de fevereiro com 120 serviços virtuais destinados a pessoas impossibilitadas de comparecer presencialmente. Outros 500 atendimentos ocorreram no mutirão presencial deste sábado.
No interior, o cronograma segue ao longo de fevereiro e da primeira quinzena de março nas unidades da Defensoria Pública.
A ação contou com apoio da Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania, que disponibilizou espaço recreativo para crianças durante os atendimentos.
Campanha inspirou iniciativa nacional
Criada em 2022 pela Defensoria Pública do Amazonas, a campanha “Eu Tenho Pai” tornou-se referência nacional e inspirou o projeto “Meu Pai Tem Nome”, realizado anualmente pelo Conselho Nacional das Defensoras e Defensores Públicos-Gerais e pelas Defensorias estaduais.
A proposta garante atendimento gratuito na área de Família com realização de exame de DNA custeado pela própria Defensoria, sem necessidade de decisão judicial prévia.
Com informações da Assessoria de Comunicação da DPE-AM*
Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus






